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Apenas mais um open sparing matinal

26/04/2010

A campainha toca às seis da manhã. Beto interrompe seu café da manhã e caminha até a porta. Era Elizete voltando do mercado. Elizete e Beto tinham um caso há mais de 6 anos e moravam juntos há alguns meses. Elizete era uma boa mulher, lavava as louças, passava as roupas de Beto e era uma boa foda.

– A essa hora da manhã e já está bebendo?

– Diabos, Elizete! Eu não estou bebendo, acredite.

– Ah não?

– Por que todas as pessoas sempre acham que a única coisa que eu sei fazer é beber?

– Você se esforçou para tanto querido, sinta-se orgulhoso.

Elizete entra na cozinha, senta-se na mesa e come o restante do sanduíche ainda quente sobre o prato. Beto veste suas calças e a observa jogar seus cigarros pela janela. Elizete detestava o hábito que Beto tinha de fumar.

– Eu odeio esse óleo barato que você usa para fritar ovos, Beto. O seu chão fica pegajoso e o cheiro de fritura impregna todo o seu apartamento.

– É? – Pergunta Beto saindo do quarto e indo em direção ao banheiro para escovar os dentes.

– Dizem que entope o coração, você não quer ficar com o coração entupido, quer? Além do mais, você engordou alguns quilos.

Beto continuava a escovar os dentes rezando para que seu coração estivesse entupido. Queria enfartar. Qualquer coisa seria melhor do que estar ali. Ele enxágua a boca e cospe na pia. Conduz a água da torneira com a mão para eliminar todos os resquícios de pasta de dentes, enquanto escuta Elizete falar sobre o quanto sua camisa está amassada.

Talvez fosse por isso que eles nunca tenham se casado. Elizete era uma boa mulher. Seu único problema era tentar ser ainda melhor. Preocupação em excesso anda de mãos dadas com a imperatividade.

Beto já está atrasado para o trabalho. Termina de calçar seus sapatos e beija rapidamente Elizete na boca.

– Meu Deus, Beto! Os cigarros estão deixando seus lábios ainda mais ressecados. Têm um novo batom incolor que é ótimo…

Sem prestar muita atenção no que ela continua a dizer, Beto pega seu celular em cima da mesa – não querido, ontem vi no jornal que o uso de aparelhos celulares dá câncer de cérebro. – diz Elizete acompanhando Beto da saída do apartamento até a escada. – câncer de cérebro. Preferia estar internado com câncer de cérebro do que ter que ouvir sua maldita ladainha – pensa Beto enquanto disca 190.

– Emergência – responde uma voz feminina do outro lado da linha

– Alô, eu preciso de ajuda urgentemente. Minha mulher caiu da escada. Ela não parece nada bem. Não está respirando. Venham depressa.

– Calma, senhor, tente não mexer nela. Agora preciso do endereço de onde você está.

Beto deu o endereço de seu apartamento enquanto ouvia Elizete se queixar dizendo que ele já estava muito grandinho para ficar passando trotes para  a polícia.

Quando Elizete estava de costas para a escada, Beto lhe acerta um soco forte na mandíbula. Ele tinha uma bela direita. Teria sido um bom boxeador amador se não tivesse conhecido Elizete e se deixado convencer de que precisava arrumar um emprego de verdade. O golpe fez Elizete rolar escada abaixo. Quando chegou ao chão uma poça de sangue se formou ao redor de sua cabeça tingindo-lhe o cabelo de vermelho. Beto desceu as escadas até ela e percebeu que exatamente como ele imaginava Elizete ficaria melhor ruiva. Nunca havia lhe dito isso para não magoá-la, não queria lhe encher com suas opiniões.

Ao longe, ouvia-se a sirene da ambulância que viria buscar Elizete. Como previsto ela já não estava mais respirando. O corpo de Elizete não emitia mais som algum. Beto a achou tão linda como nunca havia achado antes.

A carne queimada de minhas costas cairia bem com um copo de cerveja

25/04/2010

O centro caótico da cidade era como uma grande colônia de formigas. Gente correndo de um lado para o outro tentando dar um jeito de ganharem suas vidas. Tinha parado de chover há pouco tempo e a água empoçada nas ruas era evaporada pelo sol, tornando todo o lugar quente e abafado como uma estufa. E eu estava prestes a ser cozido. O cansaço me consumia, meu caminhar era desajeitado e a visão era turva por conta do suor que escorria de minha testa até meus olhos.

Diabos – pensei – estou enlouquecendo.

E eu realmente estava. Era o calor. O cheiro de meu próprio suor. O abafado. Não há lugar para se esconder, todos estamos aprisionados em nossos próprios corpos. O calor estava me matando. Não era a comida horrível que eu almoçava todos os dias, bem a falta de energia elétrica em minha casa, nem meu trabalho pesado e sem sentido. Era o calor. Já não enxergava mais nada direito quando cheguei à faixa de pedestres. O sinal ainda estava verde.

– Puta que o pariu! – é o último som que escuto antes do barulho de meu próprio corpo arremessado contra o chão. O asfalto é ainda mais quente que o ar inspirado por minhas narinas. E aquele gosto em minha boca. A dor se instala em toda a minha barriga, suponho que o gosto seja de minha própria merda misturada a sangue. Forço meu pescoço levantando a cabeça e há alguns passos de distância vejo um pára-choque amassado e sujo de sangue. Se sobreviver, terei que pagar o prejuízo?

O asfalto continua a queimar minhas costas até que os homens de branco me colocam em cima de uma maca. O ar-condicionado da ambulância parece ter sido a melhor coisa que já me aconteceu na vida.

– Agüente firme, companheiro, estamos levando-o ao hospital.

– Irá custar muito para chegar até lá?

– Escute senhor, não mentirei pra você. Iremos demorar um pouco além do previsto.

– Então está tudo bem.

Ignorei os pedidos do paramédico de que eu permanecesse acordado e fechei os olhos. Tudo era frio, as ferragens geladas da maca, o ar-condicionado da velha ambulância, meu próprio sangue, o modo que os homens de branco fingiam se importar com a minha vida. Já não me importava mais com minhas costas queimadas, a dor em minha barriga, o gosto de merda e sangue em minha boca. Dormi tão bem como nunca dormi em toda minha vida. Sonhei que era feliz e não me lembro de ter acordado.

Pague o que deve, Carlos

23/04/2010

A cerveja não estava gelada. Mas a noite era tão tremendamente quente, que mesmo bebendo todo o inferno e seus demônios, sentiria minha garganta aliviar.

– Carlos, seu filho de uma puta miserável, pague o que me deve.

O silêncio no bar foi rompido por essa frase gritada furiosamente em minha direção. Pude sentir gotículas de saliva cuspidas despropositalmente em minha nuca e cheguei à implacável conclusão – aquele cara estava puto.

– Escute companheiro, não me chamo Carlos – disse enquanto me levantava de um dos bancos sujos do bar – E não sei do que diabos você está falando.

O primeiro soco é sempre o pior. É aquele que manda a mensagem que diz: é amigo, você não vai conseguir segurar esse cara. A mensagem foi entregue diretamente me minha orelha esquerda. E eu realmente não consegui segurar o cara.

Foi uma bela de uma surra, pensei enquanto voltava para o meu quarto. Estava hospedado em uma pensão desde que havia sido despejado de meu antigo apartamento. Aluguéis atrasados. A pensão pertencia a uma dona viúva tão solitária que ela até me pagaria para morar ali. Certa vez ela me disse que seu falecido marido era escritor e me mostrou alguns de seus poemas. A maioria deles falava sobre a maneira como ele chupava a xoxota da velha. Bons poemas.

Passei alguns dias em casa me recuperando da surra. Por alguma razão eu não culpava o sujeito que havia me feito isso. Eram tempos difíceis e ninguém precisava de um maldito sanguessuga.

Alguns dia depois de me sentir um pouco melhor resolvi dar umas voltas pelo bairro. Sempre evitando as pessoas certas, é claro. Algumas ruas depois da pensão de Dona Brigite avisto um rosto familiar no outro lado da rua. Ao me aproximar mais um pouco, percebo que já sei de quem era aquele rosto. Era meu. O desgraçado era minha fotocópia. Bem que ele poderia ter tomado a surra em meu lugar. Eu só estava no lugar errado, na hora errada.

Eu poderia bater naquele cara, não teria problemas em surrar a mim mesmo.  Eu era durão, apesar de ser um covarde.

– Carlos, seu desgraçado filho de uma égua – disse eu – você deveria aprender a pagar suas dívidas.

A princípio ele não respondeu nada. Mas ao perceber que era com ele que eu estava falando disse:

– Escute cara, eu não me chamo Carlos. E não sei do que você está falando.

Aquele deveria ser o código para as pessoas ficarem putas umas com as outras. Não sei do que está falando. Se não é mentira é hipocrisia ou indiferença. Em todos os casos quem diz isso merece uma boa surra. E eu me sentia tão possesso como nunca me sentira na vida. Cerrei meus punhos e parti para cima dele.

Deixei o estranho no chão, gemendo e se perguntando o que teria acontecido. Caminhei de volta até a pensão de Dona Brigite. Não me restava muito dinheiro, mas decidi comprar flores para a velha. Quem sabe não escreveria um poema falando sobre sua xoxota. Eu não era tão bom quanto o seu velho marido. Mas era uma boa mulher, sempre tão calorosa e parecia gostar de mim. Nunca me confundiria com outro cara.

Dona Brigite me esperava ao portão, desejei-lhe um bom dia e entreguei-lhe as flores.

– Oh céus. São lindas. Meu falecido marido ficaria tão enciumado.

– Ora Dona Brigite, ele saberia que você está em boas mãos.

– Obrigada Carlinhos. Você é um anjo do céu – disse Brigite após beijar-me a bochecha.

Subi para meu quarto, pensando em quantas surras teria que levar até conseguir pagar tudo o que devia. Eu era Carlos Buarque, e estava quebrado. Tirei minhas roupas caminhando até o banheiro. Faltava água. Vesti-me novamente e desci as escadas enquanto me perguntava a quem mais poderia pedir algum dinheiro emprestado.

Bem mais caro que 17 mangos

15/04/2010

Acordei durante a madrugada e fui à cozinha tomar um copo d’água. Ao acender as luzes várias baratas se espalharam e fugiram, escondendo-se de mim embaixo dos poucos móveis que ainda me sobravam. Nem as baratas de minha casa se sentem mais à vontade com minha presença – pensei – isso tudo deve ser por conta do fedor exalado pelo meu saco. Diabos, eu preciso ver um médico. Desde que os dias passaram a ficar mais quentes eu venho deixando marcas de suor amarelado em minhas cuecas e meu saco arde quando tomo banho.

No dia seguinte acordei cedo e dirigi meu carro até o centro, onde tinham umas clínicas populares, a gente tinha que esperar pra burro, mas eu não confiava em médicos que cobravam caro. E definitivamente não queria mostrar meu saco doente para um velho branco, gordo e rico. Sentei em um  dos bancos da fila de espera e me espantei ao notar a semelhança que eles tinham com os bancos de uma antiga igreja católica que eu costumava freqüentar quando era garoto – bem, é isso que as pessoas estão fazendo por aqui, rezando para que tenham um pouco mais de vida pela frente. – Mas não me lembro de ter olhado para as pessoas ao meu redor. A sala de espera possuía um aquário, e me recordo de ter visto um peixe comer a merda ainda presa no cu de outro peixe maior, isso me chamou bem mais atenção do que qualquer pessoa no recinto.

– Sr. Sebastião – falou no microfone uma enfermeira que ficava atrás de um balcão falando ao telefone com o namorado – o doutor lhe espera na sala 56 C.

Por que diabos 56 C? Só devia haver umas três salas dentro da clínica. Dirigi-me até o consultório. Última sala à esquerda, no fim do corredor. O médico era um negro de olhos pequenos que mais pareciam dois amendoins. Fiquei imaginando quantos sacos, paus, bocetas e cus aqueles olhinhos já haviam visto naquela sala.

– Sr. Sebastião, deite-se, por favor – disse o médico.

Deitei-me arriando as calças e a cueca e disse – Doutor, dê uma olhada no meu saco, ele coça e arde muito quando tomo banho, eu o amo, mas filho da puta está acabando comigo.

– Oh, Sr. Sebastião, seu saco não me parece nada bem.

– Não sei o que fazer doutor, essa é a primeira vez que ouço isso sair da boca de um homem.

O médico passou em mim um líquido gelado e ardido e recomendou-me uma pomada, três banhos diários e que eu dormisse sem cueca, com um ventilador apontado para meu saco.

Saí da clínica satisfeito e aliviado. O consultório era localizado em frente a uma antiga cadeia que havia se tornado um centro cultural de artesanato, ou algo assim. Mas o que mais chamava atenção eram as putas velhas que sempre ficavam nos arredores do lugar. Os travecos já tinham dominado todas as outras áreas de prostituição, mas essa ainda era comandada por putas de mais de 50 anos.

Depois de três tentativas consegui ligar meu carro. O dia estava quente e senti que meu saco começara a suar e coçar novamente. Estava ansioso para passar na farmácia mais próxima, comprar a maldita pomada e livrar-me deste incômodo. Quando dobro a esquina me deparo com uma puta velha e rechonchuda parada no meio da rua.

– Ei bonitão, não quer me dar uma carona?

– Claro, esteja à vontade.

Ela entrou no meu carro, pegou firmemente no meu pau ainda mole, puxou meu rosto de lado e meteu a língua em minha boca. Ela havia fumado. Sua língua tinha um gosto azedo e senti como se estivesse lambendo um cinzeiro.

– Escute, eu acabo de sair de um consultório médico, você não tem medo de que eu tenha alguma doença contagiosa?

– Não, o posto de saúde que os aidéticos costumam freqüentar fica lá na outra quadra. E eu já estava observando você. Quando te vi descer do carro e entrar na clínica imaginei que daria uma bela foda.

Restava pouco combustível então a levei para um motel que já conhecia, era ali perto. As portas do motel eram cinza e pareciam com aquelas portas de bares de filmes de faroeste. Notei que ao redor da maçaneta estava uma crosta preta de sujeira, feita pelas mãos sujas dos amantes que freqüentavam o recinto. Conseguimos um quarto, o local tinha pouco movimento, era uma tarde de terça-feira. Nosso quarto fedia a mofo e merda.

A puta meteu a língua de novo em minha boca e eu não senti tanto desconforto quanto da primeira vez. Quem sabe se houvesse um terceiro beijo eu até gostaria.

– Nossa, você beija como um galã de cinema, gostoso.

– Você não está sentindo um cheiro forte de merda? – perguntei

Ela respondeu que o cheiro de merda era causado pelos veados que freqüentavam o lugar. Antes de serem enrabados eles enfiavam mangueiras de água em seus cus para não sujar o pau de seus namorados de bosta. Ou algo assim.

Foi uma boa foda. Ela era bem gorda, mas sabia fazer uns truques, deveria ter aprendido bastante em sua carreira. Parecia experiente. Nós dispúnhamos de três horas então decidi dormir um pouco. Não queria chegar em casa e incomodar as baratas com o cheiro do meu saco. Quando acordei minha prostituta não estava mais no quarto e havia tirado os últimos 17 mangos que restavam em minha carteira. A vadia pegara até mesmo minhas moedas. Se eu soubesse que o serviço iria ser tão caro teria pedido um recibo ou um certificado de garantia.

Dei partida no meu carro, que dessa vez pegou de segunda. Passei novamente por minha prostituta, que fingiu não me ver, bem profissional. Quem sabe da próxima não a levo para um quarto que não tenha cheiro de merda, pensei. O sol ia se pondo em meu retrovisor e senti meu saco suar de novo. A caminho da farmácia lembrei-me que não tinha mais dinheiro para a pomada receitada pelo médico. Iria ficar sem tratamento e meu saco contnuairia a arder, feder e suar até os dias quentes acabarem. Manobrei meu carro na direção oposta e dirigi até minha casa. As baratas que vão à merda.