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Um Brinde à isso

30/07/2010

Estava eu sentado à mesa, como era rotina em minhas quintas-feiras, mamando uma cerveja e estalando a língua contra os dentes, tentando em vão livrar-me de um pedaço de algo que eu deveria ter mastigado horas atrás. Quando então surge Ademar. Nós haviamos crescido juntos e ele se tornara meu amigo na época em que eu ainda tolerava as pessoas.

Eu realmente não gostava de sua presença (e talvez a minha  também não lhe agradasse tanto), mas já eramos amigos. Estavamos fadados a conviver um com o outro até que um de nós cometesse alguma atitude que nos desrespeitasse. Isso para mim era indiferente. É fácil evitar alguém. Ademar sentou-se ao meu lado, pediu uma cerveja, olhou-me por alguns segundos e disse:

– Existem algumas garotas com a cuca fodida por aí, não?

– É…

– Não consigo entender o prazer que elas têm em foder com alguém. Talvez isso para elas seja como o sexo é para nós. Elas não têm paus, então nos ferram da maneira que mais lhes parecer conveniente.

– É isso que todos estamos fazendo. Adiando a hora de nossa morte. Nos mantendo ocupados. Garotas querem apenas diversão.

– Eu conheci essa garota e ela pareceu ser diferente…

– Mulheres, você as conhece hoje e amanhã descobre fotos dela em uma suruba com pretos na internet.

– Um brinde à isso.

Brindamos. Ele continuou a falar sobre sua garota, ela deveria ser mesmo quente. Evaporou. Continuei mamando minha cerveja. Era para aquilo que eu vivia. Trabalhar para ganhar o suficiente para pequenas alegrias, mas nunca viver sem trabalhar. Estamos destinados a suar camisas, para então ganharmos um passe livre para um depósito-de-gente.

Ademar perguntou-me sobre o que eu andava escrevendo. Ele se importava, admirava meu trabalho. Era para ele que eu escrevia afinal, um fodido como eu. Mas não um fodido de verdade. Um fodido de verdade não sabe ler. Eu era filho de um paradoxo interminável. Preso eternamente ao meio. Medíocre.

Um grupo de caras começou uma briga enquanto eu respondia a Ademar sobre o que eu andava escrevendo. Foi uma briga e tanto. O gordo dono do bar teve que intervir. Ademar se valeu da confusão para sair de fininho, sem pagar por sua cerveja. Ele estava quebrado.

Terminei de tomar minha cerveja e deixei o dinheiro da conta sobre o balcão. Paguei também pelo o que Ademar bebera. Ele era meu amigo, não queria vê-lo em problemas.

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E o mundo é um grande liquidificador

13/07/2010

“Você precisa parar de dormir nu. Seus lençóis estão com um cheiro fortíssimo de cu.” Foi assim que ela me acordou naquela segunda-feira. Eu respondi, “Merda. Desde que o cu seja meu não me importo de cheirá-lo.”

Há duas semanas eu nem sonhava em conhecê-la e lá estava ela, reclamando do cheiro do meu cu. Mulheres são assim, com elas acontece tudo rápido demais. Eu a vi pela primeira vez em um bar próximo ao meu apartamento. Duas horas depois estávamos em minha cama fazendo sexo. Ela não era exatamente bonita. Era isso que me fazia sentir tão confortável ao seu lado. As mulheres bonitas querem seu amor, sua alma. Querem todas as coisas que você precisa manter caso não queira parecer um idiota. As mais feias querem apenas seu pau, algum dinheiro e um lugar para ficar. Justo o bastante.

– Sebastião – ela disse – contei a alguns amigos que você é escritor, eles querem conhecê-lo.

– Espero que tenha falado que eu sou um dos bons.

– Convidei-os para vir amanhã.

– Merda, mande trazerem algo para beber.

– Tudo bem.

– Então, vamos dormir.

Eu nunca havia conhecido nenhum amigo de Madalena e gostaria de manter as coisas dessa maneira. Ela era uma boa mulher, pareceu tão animada. Eu meio que devia isso a ela.

Madalena acordou cedo e me preparou um café. Alguém me salve, estou começando a me apaixonar.

Então a campainha tocou e eu caminhei até a porta. Estavam três garotos sobre meu tapete de boas-vindas. O careca, o gordo e uma garota bonita. Todos pareciam ricos e estavam bem vestidos. Senti vontade de perguntar a Madalena onde diabos ela tinha encontrado esses tipos, mas eu já fazia uma idéia.

O careca me alcançou uma sacola plástica contendo algumas latas de cerveja e um litro de vodka. Ele era o que parecia tentar se enturmar. Talvez pensasse que quanto mais as pessoas o conhecessem, melhor. Quanto menos eu conheço as pessoas, mais gosto delas.

– Diabos, entrem. Madalena está na sala.

Eles entraram e eu abri uma cerveja enquanto observava o rabo da garota bonita se distanciar em direção da sala.

Como eu havia prevido, a garota bonita não pronunciara uma palavra sequer. Ela andava com o careca apenas para ser vista. E o gordo, bom, o gordo era apenas gordo.

Eles sentaram no sofá e começaram a conversar sobre o quão diferentes e sensíveis eles eram. Pareciam se gabar por todas as tentativas de não se encaixar na sociedade. Mas, se você olhar em seus rabos, não verá a marca de um pé. Gostaria de ter nascido retardado, assim poderia ser feliz como qualquer pessoa normal.

O careca continuava a contar suas histórias sobre quantas garotas ele conseguia. Ele disse que conseguia qualquer rabo da cidade, bastava um telefonema. A garota bonita parecia não se importa com tudo aquilo. Eu sim. A bebida havia acabado e eu já estava ficando tonto com todo aquele falatório. Por fim eu disse:

– Escute garoto, todos somos pedaços de merda diferentes, mas o mundo é um grande liquidificador. Agora dêem o fora daqui antes que eu chute seus traseiros.

Eles nem haviam saído direito quando Madalena disse, “você não precisava ter sido tão grosso com aquela histórias de todos sermos pedaços de merda.” Então eu disse, “Garota, eles devem estar escrevendo aquilo agora mesmo em seus diários. Agora vamos dormir, me sinto enjoado.”

Ela tomava banho quando me deitei. O barulho da água caindo no chão do banheiro me fez dormir. Não transamos naquela noite, eu estava apaixonado demais para ficar excitado em uma situação como aquela. Isso significava problemas.

ASANC

04/07/2010

A parede da sala de espera foi pintada em tom morto de amarelo que fazia as sombras na parede parecerem marcas de sujeira. É esse o tipo de coisa que os anúncios de TV tentam mascarar. É esse o tipo de coisa que eu venho sendo pago para fazer. Depois de perder o terceiro emprego em dois meses é assim que tenho me sustentado, escrevendo folhetins e anúncios publicitários. A maioria das pessoas não se dá ao trabalho de escrever, mas comigo as palavras simplesmente surgem para dar uma trepada em um pedaço de papel.  Eu apenas tento não ser o empata-foda da jogada.

Estava quente pra burro. Meu suvaco não parava de suar e eu não queria passar mais 2 segundos olhando para cara daqueles adolescentes veados e eufóricos que achavam estar salvando o mundo por não comerem a carne de uma vaca. Não importa o que seja importante para você, para o resto do mundo sempre existem coisas mais importantes. Levantei-me para beber um pouco de água – gire a alavanca e espere o copo cair – não caiu. Esqueci a água e me sentei novamente. A mulher ao meu lado já havia roubado os cupons de desconto de todas as revistas e jornais que repousavam sobre uma mesinha de centro próximo ao bebedouro. Parece-me que alguém vai às compras mais tarde.

– Ei garoto – perguntei a um dos rapazes que ia em direção ao banheiro – você não deveria estar na escola?

– Existem coisas mais importantes do que ir para a escola.

A sala de espera era dividida por todos que estavam no local. Era estranho observar tipos tão diferentes ocupando o mesmo espaço. Mas todos nós estávamos lá por enxergar alguma vantagem nessa coisa toda. Alguns precisavam de comida. Outros precisavam se sentir importantes. E eu precisava de algum dinheiro.

– Sr. Bravo. Por favor, me acompanhe.

– Mas, claro, madame.

Acompanhei a moça até outra salinha e ela me pediu para aguardar alguns minutos. Diabos, outra maldita sala de espera. Já era a terceira vez que eu ia naquele lugar e já estava cansado de tanta enrolação. Então saiu um rapaz de uma porta à minha esquerda. O mesmo das últimas duas vezes. A mesma camiseta estampando “ASANC” – Animais São Amigos e Não Comida.

– Sr. Bravo, por favor me desculpe pela demora

– Tudo bem, cara. Só não me deixe sozinho de novo com aqueles garotos ou Deus me ajude, pois eu irei matá-los.

– O senhor continua um brincalhão, não é? – riu-se

– Eu preciso muito dessa grana. Diga-me logo qual é o trabalho, essa demora está me matando.

– Ora, Sebastião, o senhor se mostrou bastante prestativo vindo aqui para tratar de negócios. Mas como saberei se o senhor é realmente um bom escritor?

– Eu sou melhor que um bom escritor. Sou um escritor faminto e preciso de um trago. Escreverei em três linhas o grande romance do século XXI se eu estiver bêbado o suficiente.

Conversamos por mais alguns minutos e ele me mandou embora dizendo que ligaria para passar mais detalhes à respeito do trabalho. Quando passei novamente pela sala de espera observei um entregador matando a sede com um copo d’água ao lado do bebedouro. A porra de um entregador conseguiu retirar um copo descartável onde eu falhei. Pensando bem, todas as pessoas daquele lugar pareciam se encaixar nele. Todos desempenhando seu papel majestosamente. Não havia lugar para mais um. Não para mim. Eu precisava cair fora.

Algumas ruas depois de sair do prédio da ASANC meu telefone celular começa a tocar em meu bolso. Eram eles. Provavelmente para falar do próximo folhetim que eu deveria escrever.

– VÁ PARA O INFERNO – gritei ao telefone e desliguei.

Lavar pratos para viver não é tão ruim assim.