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Expresso Sodoma

31/08/2010

Eu não sou bem um cara que costuma conversar. Conversas muitas vezes me causam enjôo, náusea ou simplesmente a vontade de sair para o lugar mais longe que puder arranjar. Não sei como funciona com as outras pessoas. Mas durante o dia tenho que várias vezes controlar meus instintos para acabar não matando alguém. Ou sendo morto, conseqüentemente. Eu estava em mais um desses trabalhos. Trabalhos que a maioria das pessoas não quer, mas precisam ser feito por alguém. Para isso os contratantes têm que manter contato com a camada fodida da cidade. Eis a ironia da situação; por mais rico que o contratante seja, ainda assim tem sempre que rondar por ruas fedorentas, apertar mãos sujas. Tudo para encontrar alguém que seja faminto o suficiente para fazer o trabalho sujo em troca de ninharias.

– Ei cara, tá um sol do caralho hoje, não? – perguntou-me o sujeito enquanto me alcançava mais um cartaz.

Não respondi. Colávamos cartazes nos muros de uma grande avenida da cidade. O cara passava o grude no material e eu o fixava na parede. – Proibído colar cartaz de propaganda aqui, se colar será arrancado – li no muro de um terreno abandonado. Diga isso para alguém que se importe, parceiro.

– Ei, compadre! Sabe por que o nome dessa merda é lambe-lambe? Porque é melhor lamber o cu de uma cadela do que ficar andando o dia inteiro com esse balde de grude na mão. Essa merda não vai largar nem com solvente, meu chapa! Você é meio tímido não é? Não costuma falar enquanto trabalha?

Olhei para o cara por alguns segundos. As pessoas costumam confundir minha falta de vontade para conversar com timidez. Assumem que o motivo para a falta de comunicação é sempre timidez, indiferença. Não conseguem perceber que na maioria das vezes simplesmente não temos merda nenhuma para falar.

– Merda. Ainda temos uns 35 cartazes para colar. Se não nos concentrarmos iremos passar o dia inteiro presos aqui. – eu lhe disse.

– É, talvez você tenha razão. Mas eu gosto de falar cara, não posso evitar isso. Antes de toda essa crise eu costumava ser locutor de rádio. Agora olhe só pra mim… Atolado na merda até os joelhos.

– Não é fácil.

– E você, costumava ter algum outro emprego?

– Tentei ser escritor.

– Cacete, temos dois artistas torrando aqui hoje. Sobre o que você costumava escrever?

– Sobre vida, suor, merda, sangue. Eu tentava fazer meus leitores se sentirem sujos.

– Agora vejo porque você está aqui.

Terminamos de cobrir os muros da avenida, apertamos as mãos e nos despedimos. Morávamos em cantos opostos da cidade, Agnaldo e eu. Iríamos espalhar o cheiro de grude por toda a extensão da cidade. Caminhei até o ponto de ônibus mais próximo e sentei-me. O que é uma cidade além de um aglomerado de concreto e pessoas lutando pra sobreviver?

Recostado sobre um desses anúncios de propaganda acabei por dormir. Sonhei que estava em um ônibus. Todos os sons da cidade pareciam abafados, distantes. Porém, o barulho das pessoas ao redor fazia-se ouvir e lembrava-me os tempos de sala de aula. Sento-me em uma cadeira e desviando meu olhar através do contorno do corpo das pessoas enxergo a rua através do pára-brisa. A visão de uma explosão me queima os olhos. Aterrorizada, uma senhora derruba sua sacola de compras enquanto os pneus do ônibus conduzem a nós para o miolo de todo aquele fogo. No fundo, um negro cospe seu cigarro, abre uma bíblia e começa a gritar – Então o Senhor fez chover enxofre e fogo, do Senhor desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra; – Os vidros de todas as janelas explodiam sobre nós à medida que não podiam suportar o calor. A gritaria da multidão que se espremia dentro do ônibus não abafava a voz do negro, que de pé sobre uma das cadeiras continuava – E destruiu aquelas cidades e toda aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e o que nascia da terra. E o Senhor olhou para Sodoma e Gomorra e para toda a terra da campina; e viu, que a fumaça da terra subia, como a de uma fornalha – Lá se vão todos os cartazes que eu havia pregado durante toda a tarde. Sinto uma mão grudenta tocar meu ombro. É Agnaldo, que sorri e me diz “O calor do fogo está removendo todo o grude de minhas mãos.” Seus dentes pareciam enormes, iluminados pela explosão. O calor do fogo está removendo todo o grude de minhas mãos.

Finalmente consigo acordar. Ainda estou recostado sobre o mesmo anúncio, no mesmo ponto de ônibus. Observo meu ônibus se aproximar e estendo a mão. Subo ao ônibus tentando me lembrar do sonho que acabara de ter. No fundo, violando uma lei federal, um negro fuma um cigarro enquanto observa com olhar distante um livro grosso e preto que repousa sobre seu colo.

Quatro copos de cerveja

19/08/2010

Eu estava caminhando em direção ao trabalho quando me deparei com um velho conhecido. Ele estava ladeado por duas garotas que eu ainda não conhecera. Um encontro casual, mera coincidência. É engraçado encontrar pessoas de supetão. Eu namorei uma garota há um tempo e nunca mais a vi novamente. Já havia passado por dezenas de bancos, padarias, shoppings, motéis, parques, praças. A garota sumira. Seria mais fácil se as coisas sempre acontecessem dessa maneira. A convivência com as pessoas tem um prazo de validade que inevitavelmente chega-se ao fim. Por muitas vezes tentamos lutar contra isso. Quero dizer, nos livramos com relutância de um alimento saboroso com a validade vencida. Assim é como com as pessoas, sobretudo com mulheres.

Ademar logo estampou um sorriso ao me ver. Tratou de apresentar-me bem às garotas, sem poupar-me de elogios. Ele era um bom sujeito na verdade. Sempre contente independente de como a vida fosse difícil. Porém, já cheguei a considerar que afastado de olhos observadores as atitudes humanas são bem diferentes. Saímos para sermos observados, agimos para sermos observados. A piada do palhaço sequer seria feita sem a presença de uma platéia. Ademar sorriria sem alguém para lhe sorrir de volta ou mesmo negar-lhe um sorriso?

– E então, Sebastião, que tal acompanhar a mim e as garotas pra tomar um trago?

Olhei o relógio, ainda faltavam 45 minutos para meu ponto de entrada no trabalho.

– Bem – disse eu- posso tomar uns copos antes do trabalho.

Apesar de aceitar o convite de Ademar, senti certa relutância. Mal havia arrumado um novo emprego e já conheceria o bar mais próximo. Não sou um alcoólatra, mas isso poderia vir a arruinar tudo.

O bar era um lugar simpático, mesas ao ar livre. Sentamo-nos, pedimos algumas cervejas. As garotas eram enfermeiras e não paravam de falar sobre acidentes, fatalidades. Eu não sabia, mas dependendo da gravidade do acidente, podem precisar transformar o buraco do seu pau e de seu cu em um buraco só. Teria que passar a viver como um pássaro, com uma cloaca. Situação horrorosa. Toda essa conversa me deu vontade de pedir uns tira-gostos.

Percebi que precisava ir embora dali. Aquilo se tornaria um hábito perigoso se eu não partisse. Quatro copos de cerveja ao invés de trabalho duro é algo que não se pode ter hoje em dia. Pedi licença as garotas e a Ademar, levantei-me, deixei uns trocados sobre a mesa e parti para o trabalho. Pedófilos não podem morar perto de creches escolares.

Contatos imediatos de primeiro grau

16/08/2010

Eu observo as patroas ricas correndo em seus horários livres e não consigo as entender. Geralmente elas são endinheiradas e correm segurando as coleiras de seus cachorros enormes, com suas caras entupidas de protetor solar e seus tênis que valem mais dinheiro do que gasto com comida em 6 meses. Enquanto corria passei por uma patroa assim. Eu era entregador de jornais e desde que um desgraçado me roubara a bicicleta da firma, eu tinha que fazer as entregas correndo para conseguir bater minhas metas. Que tolo, nunca conseguiria. Achei que ao menos se voltasse lá com a camisa empapada de suor sentiriam pena de mim e me dariam a porcaria de uma bicicleta nova. Algumas pessoas não aprendem. Não se pode nem contar com a compaixão alheia – A bicicleta que você perdeu era de propriedade da empresa, ao menos que você compre uma nova terá que fazer suas entregas a pé. E o valor dela será descontado de seu soldo até que ela seja completamente paga, algo em torno de 10 meses – 10 meses. Eu não agüentaria 10 meses, o trabalho me consumiria até a alma, e no fim eles cobrariam o dinheiro da bicicleta a minha mãe. A dívida de um filho morto, a vida de um filho que vale menos que pedaços de metal e borracha, soldados pelas mãos de algum chinês de 12 anos. Minhas narinas já estavam a arder, meus pulmões pareciam papel vegetal sendo queimado por pontas de cigarro. Por que aquelas vadias louras continuavam a correr? A tintura capilar amarela misturada ao suor, manchando as costas de suas blusas. Se eu tivesse tanta grana assim passaria o dia inteiro comendo, bebendo e fodendo. Nos primeiros 2 meses eu já teria engordado uns 200 quilos.

Eu ganhava algo em torno de 50 reais por semana com os jornais caso conseguisse realizar todas as entregas a tempo. Caso não, seriam descontados 3 reais por cada remessa perdida. Com a bicicleta, eu conseguia entregar duas remessas por vez, sem ter que voltar ao galpão para buscar mais. Sem ela eu precisava correr com os pacotes de jornal e mesmo assim só conseguia carregar uma remessa por vez. Eu trabalharia o dobro de idas e vindas ao galpão, o dobro do tempo. Para receber metade do que deveria receber por semana durante 10 meses. Quando esse tempo passasse, estava certo de que outro problema surgiria. Você consegue se livrar de alguma situação, mas nunca o suficiente pra escapar de todas elas.

Entreguei a última remessa de jornais e voltei a pé para casa mesmo estando cansado. Ou apanhava um ônibus ou lanchava na tarde seguinte. Considerando a ocasião de fazer todas as entregas com a barriga roncando, andar mais alguns metros não faria diferença para os meus pés. Sempre ao chegar perto do portão de minha casa abria meu melhor sorriso. Minha mãe morava comigo e eu havia contado para ela que trabalhava com o computador lá no jornal. Ela sempre teve orgulho de um filho que trabalhava com o computador, e não suportaria aceitar que os restos de comida resfriando dentro da geladeira haviam sido comprados a base de suor e ossos doloridos do filho.

– Dia duro no escritório?

– Não mãe, sempre tudo é muito tranqüilo. Mas me deixe dormir, preciso falar cedo com o Sr. Araújo amanhã.

– Filho, não se meta com o Araújo, ele só quer lhe explorar. Esse tipo de gente não presta pra você.

– Não se preocupe mamãe, eu já disse a ele que não participaria de suas rinhas. Só preciso pegar o currículo da filha dele pra levar pro escritório amanhã.

No dia seguinte acordei cedo e fui até o bar do Araújo. Araújo era um velho que organizava umas lutas entre os garotos da favela. Nenhum deles tinha treinamento em alguma porcaria em especial, mas as pessoas gostavam de ver dois meninos se estraçalhando feito animais. E pagavam pra isso.

– Perdendo ou ganhando você leva, filho. Não tem vacilo. – Disse Araújo enquanto limpava um copo sujo em seu avental imundo.

– Não ache que eu sou um imbecil igual como outros garotos, Araújo. Eu só estou precisando da grana, e só farei isso essa vez.

– Você vai viciar, garoto. Você tem porte, acredite! Acho que talvez consiga derrubar alguém. Apareça aqui no bar hoje a noite. E não vá furar comigo.

Só para subir no ringue os lutadores ganhavam 50 reais. O ganhador levava mais 30 pra casa. Eu não tinha nada a perder. Pra quem corre a semana inteira para ganhar a mesma quantia, isso me pareceu justo o bastante para tentar.

– Pode esperar por mim Araújo e não me enrole, senão teremos dois nocautes hoje a noite.

Faltei o trabalho para tirar a tarde de descanso. Dormi. Acordei. Lavei o rosto e saí às escondidas em direção ao bar de Araújo. A vizinhança estava fervendo. Meus ombros pareciam feitos de cimento. Eu acreditava estar pronto para levar umas bordoadas, a vida havia me treinado muito bem para isso. Chegando ao bar de Araujo entrei pelos fundos e como ele tinha me dito repousavam sobre a mesinha um calção colorido e um par de luvas de boxe. As luvas estavam úmidas e fediam pra caralho. Não importava quantos dias elas ficassem penduradas ao sol, o suor de um lutador parece nunca secar. Calcei as luvas, vesti o calção e caminhei em direção ao ringue improvisado no meio de um terreiro. Os espectadores se espalhavam ao redor, sentados em caixotes, tamboretes, cadeiras de plástico ou qualquer coisa que servisse de apoio para seus rabos. A multidão de gente vibrava com a minha chegada. O outro lutador já me esperava no centro do ringue, a areia manchando seus pés descalços. Passei por baixo das cordas e esperei o sinal. Araújo observava tudo de sua cadeira com uma cerveja na mão quando gritou – lutem! Era assim que seria, sem apresentações. Não éramos pessoas, não tínhamos nomes, não precisávamos de nomes. O garoto parecia estar possuído, veio correndo em minha direção e – POW – acertou um direto bem na minha cara. Desequilibrei-me e quase fui ao chão, mas consegui me por em pé. Ele precisaria bem mais do que isso.

Você consegue dizer muita coisa sobre alguém observando o modo como ele luta, eu estava descobrindo que brigar com alguém é algo tão íntimo quanto foder. É um exercício de dominação. O vencedor prevalece. Dancei um pouco ao redor do garoto e desferi alguns murros em sua barriga. Sempre via na televisão os boxeadores profissionais começarem pela barriga, a televisão era um troço confiável, valeria a pena tentar. Ele continuava socando a minha cara e eu não conseguia desviar de seus golpes. Quando reparei meu sangue em suas luvas me vi com problemas, minha cabeça instantaneamente começou a bolar uma idéia de como explicar a mamãe a origem dos hematomas. Mas, quando você está encarando um homem disposto a matá-lo, qual é a diferença? Tratei de me concentrar na luta e lhe acertei uma esquerda no olho. As luvas chacoalhavam. Minhas mãos eram pequenas demais para elas, fazendo com que meus golpes soassem como enormes pedaços de merda caindo ao chão. Ele estava acabando comigo. Com um mata cobra que me atingiu no queixo caí pela primeira vez. Araújo começou a contagem. Eu me perguntava se haveriam intervalos para descansar entre rounds, mas não conseguia enxergar nenhum gongo. Nossos corpos agora pertenciam ao ringue, e lutaríamos quanto tempo fosse preciso, até que um de nós não conseguisse mais levantar. Caí ao lado de um pequeno formigueiro e percebi que meu sangue estava afogando uma porção de formigas. Sorri, pelo menos conseguira derrotar alguém naquela noite. Quando a contagem passou de 15, eu não consegui entender sua razão de existir. Decidi que só iria levantar se fosse para matar aquele desgraçado. Não iria levantar para lhe servir de saco de pancadas, o dinheiro não aumentava baseado no tempo das lutas. Eu precisava vencer. Ainda no chão olhei para meu oponente, ele estava um pouco machucado, mas nada grave. Resolvi levantar. Forcei meus joelhos e fui levantando devagar, a raiva crescia dentro de mim. Eu era uma bomba atômica pronta para fritar o rabo de alguns japas.

Mal havia me levantado e ele já me cortara o lábio com um soco. Senti minha boca amolecer. Meu lábio inferior rasgara em dois. Fiquei a imaginar se as metades se juntariam de novo. Teria que me acostumar com a idéia de viver com três lábios na cara. Algumas garotas poderiam gostar? A maioria delas acharia nojento. Meu algoz já mal se equilibrava em pé, estava exausto. Exaurido de forças, seus golpes estavam cada vez mais fracos. Bater cansa mais que apanhar. Boxear é muito mais sobre a quantidade de castigo você consegue receber sem cair, como a vida. Um exercício de sobrevivência. Continuei a me defender do modo que podia, enquanto os braços do outro lutador pareciam ficar mais fatigados, começavam a abaixar. Era a hora de partir para o ataque. Munido de toda a força que consegui, caminhei em direção a ele. As luvas chacoalhando em minhas mãos, as pequenas formigas dançando sobre meus pés. Antes que eu pudesse desferir qualquer golpe, fui surpreendido por um direto no nariz. Meu corpo amoleceu e fui ao chão novamente. O sangue jorrava de meu nariz e boca. O ser humano é mesmo um amontoado de sangue, tripas e merda. Usamos roupas caras pra disfarçar a imundice que existe dentro de nós.

Eu estava me afogando em meu próprio sangue. “Ele está morto!” ouvi alguém gritar na platéia improvisada. Achei que eu não estivesse morto, seria muito injusto morrer e continuar a sentir dor. Mais uma vez meu sangue afogava uma porção de formigas que tentavam fugir de um formigueiro inundado, uma colônia inteira destruída. Meus três lábios esboçaram um sorriso. De algum modo eu me considerava o vencedor da noite.

Cuspindo fogo sobre a zebra

12/08/2010

O calor enlouquece. É preciso desviar sua atenção para manter a sanidade. Eu estava sentado ao lado da janela e o ônibus já estava parado havia mais de 10 minutos. O sol machuca a pele, seca os lábios e você é capaz de se afogar em seu próprio suor. O problema dessa cidade é que ela foi erguida em um lugar onde deveria haver apenas um deserto. Eu que dei o azar de ser parido aqui.

Uma jovem senta-se ao meu lado e sorri. Sorrio de volta desconsertado, obsceno. Nunca soube ser um sujeito boa praça. Na frente das fileiras de carros, um rapaz cospe fogo em troca de algumas moedas, enquanto caras de terno e gravata fazem fortunas usando uma calculadora que pode ser manuseada por uma criança de oito anos. O cuspidor de fogo se aproxima de um carro importado. Suas rodas são tão bem polidas que seria mais agradável comer ali do que nas mesas do refeitório do meu trabalho. A comida é servida como uma cortesia da firma, então os trabalhadores erguem verdadeiras montanhas de alimento em seus pratos, impossíveis de se garfar sem espalhar incontáveis grãos de arroz e feijão ao longo das mesas.

Ao aperto de um botão o vidro do carro de aros polidos desce e uma mão deposita alguns trocados na mão do cuspidor de fogo. Seus lábios deformados pelas chamas e querosene balbuciam “Deus te abençoe”. E esse é o fim de mais um contrato social. Cada parte cumpriu muito bem o seu papel. Os trocados depositados nas mãos já sem digitais de tão queimadas do cuspidor de fogo é o imposto pago pelo rico senhor do carro de rodas polidas para que o outro mantenha sua desgraça. O luxo e a riqueza só existem à custa de muita miséria.

O cheiro do aromatizante do carro não permite que seu motorista inspire o cheiro do querosene, assim como o fedor de meu próprio suor não me permite sentir o perfume da jovem sentada ao meu lado. A luz verde acende no sinal e eu torno a pensar em meus próprios problemas, enquanto o cuspidor de fogo corre satisfeito de volta ao canteiro. O vidro do carro importado volta a subir e a jovem vira mais uma página do livro que lê. Cada um de nós de volta ao nosso próprio inferno particular.

O velho depósito

10/08/2010

– Não diga que eu sou um filho da puta, sua vagabunda sem coração! Eu já esfolei galinhas mais sensíveis do que você nos tempos em que trabalhei na granja.

– Eu nunca lhe disse que seria boa, nunca lhe fiz promessas.

É isso que torna o ser humano o mais perverso dos animais, indiferença para com a dor alheia, mesmo que essa seja fruto de nossas atitudes. Eu me lembro de ter visto mulheres chorando por mim, mas nunca me responsabilizara por nenhuma delas, achava que todas eram vadias loucas. Achava que deveria haver alguma placa em minha casa dizendo “depósito de vadias loucas”.

Agora eu me via na situação oposta. Ela estava me deixando. Valia menos que uma galinha esfolada e eu estava fadado a chorar por ela. A viver no vazio antes ocupado por suas falas, trejeitos e perversidades. Tão cedo não haveria de arranjar uma nova companheira para habitar minha moradia. Apenas uma vadia louca de coração despedaçado no velho depósito por vez. Dessa vez era eu mesmo.