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Mais uma camada para o sofá

16/09/2010

Ademar Marinho estocava violentamente com seu cacete o traseiro de sua esposa adormecida. Teresa despertou lentamente, sentindo o cheiro de uísque que o corpo de seu marido emanava. O cheiro habitual de seu suor, que era sempre substituído pelo odor de bebida, como se todos os líquidos de seu corpo houvessem sido substituídos por álcool. Tentou fingir estar adormecida, mas as investidas de seu marido eram cada vez mais descaradas, eliminando toda sua vontade de permanecer na cama. Por fim, Ademar a surpreendeu ejaculando em sua camisola mesmo estando com o pau meia-bomba. Girou a cabeça de sua mulher e chupou sua língua violentamente.

Teresa levantou-se da cama, olhou por cima do ombro e viu Ademar limpando o pênis em uma toalha de cama. A figura bestial de seu marido, suado, urrando de cansaço, peludo como um urso. O homem que a alimentava e vestia, mas era visto como um herói que causa repulsa. Ainda calada foi ao banheiro. Ademar reclamava o tempo inteiro sobre como o quarto estava bagunçado e como os lençóis de cama estavam sujos.  Teresa esfregava com um pedaço de sabão e toda sua raiva a camisola suja de sêmen. Não sentia nada por Ademar a não ser ódio. Lamentava-se por não ter morrido junto com o bebê anos atrás. A voz de seu marido chegava até ela como fantasmas de seu passado. Lembranças que a faziam acreditar que sua mãe estivera certa o tempo todo. A sensação de que não há escolha.

– Sua cretina de merda! Venha já para o quarto! Eu quero seu rabo firme e aqui, ao alcance de minhas mãos!

– Não me sinto bem, Ademar. Deixe-me, por favor.

– Você não está se sentindo bem? Eu estouro meu rabo por aí tentando colocar comida dentro da porra dessa casa e você vem me dizer que não está se sentindo bem?

As esfregadas cada vez mais frenéticas começaram a desmanchar lentamente as costuras da camisola, de onde a mancha já largara há tempos, mas que Teresa ainda conseguia farejar os cheiros de bebida, de porra e de fracasso que se impregnaram tão profundamente em suas narinas e em sua vida.

– E olha só a porra desse sofá coberto com os malditos trapos de uma rede velha! – gritou Ademar enquanto vestia suas calças – você escolheu por três malditos dias a porra da estampa para quê então? Para escondê-la com a porcaria de uma capa surrada?

– É só para manter o sofá conservado. – lágrimas rolavam de seus olhos, as pontas de seus dedos já enrugadas de tanto esfregar.

– Conservar porra nenhuma! Eu vou lhe rasgar em duas, sua cadela!

O som dos passos de Ademar, cada vez mais próximo, anunciava a surra que vinha a caminho. Teresa lembrou-se de todas as surras que levara, lembrou de todas as vezes que com um olho roxo teve que sorrir para um vizinho que não acreditara tanto na história de que ela havia caído da escada. Fechou os olhos e tentou desligar-se dali, primeiro tentando não ouvir o som da respiração pesada de seu marido, depois se concentrando no cheiro de sabão que rodeava todo o banheiro com piso de cimento batido. Porém, o som do telefone irrompeu dentro de seus pensamentos.

– Porra! – gritou Ademar – quem deve ser uma hora dessas da manhã?

– Deve ser uma de suas malditas putas!

– Tirando você, eu não tenho puta nenhuma.

Ademar caminhou como um embriagado caminharia até o telefone, puxou-o do gancho e atendeu.

– Alô?

– Ademar, querido. Precisa quebrar o meu galho, amor.

– O que foi agora?

– Preciso de ciqüenta mangos! É urgente dessa vez, por favor, papi. Me ajude.

– Estou a caminho, mas não vá se acostumando.

Pousou o telefone no gancho e sentou-se para calçar suas botas.

– Preciso dar uma saidinha, você mantém o seu rabo quietinho aí. Quando eu voltar temos muito para conversar.

– Eu sabia que era uma de suas putas, Ademar! Por que você faz questão de me humilhar dessa forma? Eu não mereço isso. – Teresa cuspia enquanto falava. Sua boca não conseguia acompanhar a violência que cada palavra era proferida – Você é um porco, um maldito porco escroto, bêbado e fedorento. Eu odeio você!

Ademar levantou-se calmamente da cadeira onde se calçara e caminhou até sua mulher que mordia os lábios para não chorar e tremia de pavor. Levantou uma de suas grossas mãos e desceu violentamente contra a face de Teresa, que rodopiou várias vezes antes de cair no chão da sala.

– Eu falei… Pra você… Manter seu rabo quietinho… Na porra da casa!

– Teresa rastejava pelo chão, com o rosto em brasas. Engasgada com o choro, não conseguia pronunciar nenhuma palavra, mas se agarrava a perna de Ademar, tentando o impedir de sair de casa.

– Deixe-me sair! Eu não demoro, quando voltar nós conversamos!

– Por favor, querido – Teresa soluçava – não me deixa aqui sozinha, fica comigo. Eu imploro.

Ademar conseguiu se desvencilhar dos braços de sua esposa e saíra de casa. Deu a partida no fusca desbotado e foi ao encontro de Marta. Chegando à área das putas velhas da cidade riu ao vê-las se oferecendo tão barato, a qualquer um que tivesse dinheiro para pagar. Virando a esquina avistou Marta e reduziu a velocidade do fusca até parar ao seu lado. Ele sorriu e estendeu o dinheiro através da janela, ela sorriu com seus dentes esverdeados e abriu a porta do fusca. Os dois se beijaram apaixonadamente e Ademar perguntou como estava sendo seu dia. Marta respondeu que tinha pegue um cliente que não estava muito limpo e precisava de um banho urgente. Depois lhe explicaria (e compensaria) porque precisava das cinqüenta pratas.

Sorrindo mais uma vez, Ademar Marinho deu partida no velho fusca e partiu enquanto observavam as outras putas se distanciarem no retrovisor.

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Promíscuo Plínio

10/09/2010

– Sr. Bravo, Sr. Bravo! – três batidas na porta.

Era a velha senhoria a chamar meu nome, batendo na porta de meu quarto. Eram 7 da manhã e eu estava com uma ressaca de doer. Ainda tinha algumas horas antes de levantar para o trabalho, e queria aproveitá-las da melhor forma possível. E isso não incluía atender uma velha viúva louca que provavelmente só iria me fazer perder tempo.

– Sr. Bravo! – Insistiu com três batidas, dessa vez mais fortes.

– Diabos, mulher! Deixe-me dormir! – gritei da maneira mais gentil que pude àquela hora da manhã.

– Preciso saber se o senhor está com água, os outros moradores estão reclamando! Não quero ter que acordar Seu Plínio a toa.

Seu Plínio era um velho negro esquelético que morava na quitinete localizada no fundo do terreno. Sua mulher havia morrido há alguns meses, e sua aposentadoria não era suficiente para comprar comida e pagar o aluguel. Desde então ele fazia pequenos serviços para Dona Brigite, a dona dos aposentos. As pessoas costumavam dizer que Dona Brigite era uma velha tarada e que Plínio a fodia em troca de alguns trocados ou pratos de comida. Mas as pessoas falam demais. Plínio era apenas um pobre diabo, viúvo e mais fodido do que qualquer um que morasse ali. Dona Brigite só estava tentando ajudá-lo, manter o velho ocupado para não pensar demais na mulher. Ela dizia – Plínio, Plínio, cabeça vazia oficina do diabo. – e pedia  que ele trocasse as lâmpadas do corredor, desentupisse uma privada, consertasse um portão, e agora pediria para que ele checasse a caixa d’água. Apenas uma caixa d’água para uns seis ou sete quartinhos, que se dividiam em um modesto prédio de quatro andares.

Sem mesmo checar a torneira gritei para Dona Brigite que estava sem água, mas não me importava muito com isso. Ela agradeceu-me e caminhou em seus passos pesados até o quartinho de Plínio, que já havia acordado e se aprontado ao ouvir toda a gritaria. Levantei-me da cama e fui até a porta esperar para ver passar Brigite e Plínio, com sua caixa de ferramentas e suas roupas surradas que recebia de doação dos outros moradores. Eles subiram e Plínio me olhou. Tentei acenar com a cabeça e balbuciar um bom dia, mas aquele olhar me paralisara. Não entendi muito bem, mas Plínio me disse algo com aquele olhar, pouco antes de morrer.

Eu procurava minha camiseta para ir ao trabalho quando passei em frente à janela e ouvi gritos de dona Brigite. Num piscar de olhos vi um vulto passar diante de mim, indo em direção ao chão. Porra – pensei – Plínio derrubou sua caixa de ferramentas, desse jeito sairei de casa sem nem escovar os dentes. Mas não, ao abrir a janela e ouvir mais gritos de Dona Brigite, vi que Plínio caíra do terraço. Seu corpo aos frangalhos na calçada era uma massa disforme de ossos e sangue pisado. Dona Brigite gritava como quem estivesse vendo o próprio diabo: “ELE PULOU, POR DEUS! O HOMEM SE JOGOU, ALGUÉM CHAME AJUDA!”

Se algum dia eu cometesse suicídio seria pulando do lugar mais alto que eu pudesse encontrar. Sentiria o vento machucar o meu corpo, e me estraçalharia todo ao tocar o chão. Depois alguém viria com uma pá para recolher o que sobrasse de mim. Alguém limparia meu sangue com uma mangueira antes mesmo que ele pudesse coagular.

Ainda chocado, desci as escadas rumo ao trabalho e passei pelo local onde Plínio caíra. Uma multidão de pessoas formava um círculo ao seu redor, todos comentando sobre o quanto ele estava triste desde que sua mulher morrera. O promíscuo Plínio, que todos diziam foder Dona Brigite por comida agora era o Pobre Plínio, o Triste Plínio, Plínio Suicida. Não era uma coisa agradável de ser ver mas todos brigavam, se empurrando ao redor do cadáver para ver um pedacinho de desgraça.  Respirei fundo o cheiro metalizado que o sangue deu ao ar. Acendi um cigarro e caminhei até o ponto de ônibus.