Archive for outubro \22\UTC 2010

[OFF] Oncoming Truck

22/10/2010

www.oncomingtruck.wordpress.com

 

Queridos Leitores,

Infelizmente dessa vez não trago nenhum conto. A razão desta postagem é a divulgação de um novo projeto meu para todos vocês que gostam da maneira que eu escrevo.

Quando eu criei o Sebastião não está morto, eu tinha uma proposta em mente. Uma proposta que acredito ter deixado bem clara em cada palavra escrita aqui neste blog. Eu queria vê-los sentindo-se sujos, tocados, agredidos. Queria trazer a realidade seca para cada um de vocês. Tentar mostrar para o máximo de pessoas o que não é bonito de se ver, mas que está por aí em cada beco, esquina, bar e fábrica do mundo.

Mas, desde que escrevi certa história (que inclusive foi postada aqui como “Promíscuo Plínio”) alguns fantasmas vêm me perturbando. Desde que pontuei esse conto vinha sentindo como se tivesse deixado algo para trás. E depois de muito pensar a respeito, acredito ter recuperado o que perdi nessa história.

Agora, o que eu vinha achando incompleto começa a tomar forma e decidi compartilhar com quem quer que se importe. O Plínio me deu a oportunidade para falar sobre temas que há muito queria publicar para vocês, mas a vontade de manter a coerência nesse blog me fez adiar.

Finalmente, cortando a enrolação, decidi abrir um novo blog, onde pretendo publicar os textos referentes a essa novela que venho escrevendo (e que ainda continua sem título, diga-se de passagem).

O oncoming truck é este novo blog, onde postarei os capítulos deste novo folhetim que venho escrevendo. É uma história linear, e não uma série de contos. Por isso vocês precisam acompanhar caso queiram entender a história.

Para aqueles que não se interessarem pela novela, garanto que continuarei sim com o Sebastião. Afinal de contas , somos a mesma pessoa.

Esse é o primeiro (e espero ser o último) off topic deste blog.  Apesar de eu não gostar desse tipo de coisa, em respeito a quem procura por literatura. Mas, acredito que não haja um lugar melhor para divulgar esse novo trabalho.

Espero que acessem, espero que leiam e espero que gostem.

 

www.oncomingtruck.wordpress.com

Atenciosamente,

Luan Brito

ou Sebastião Bravo

Os deuses estão em guerra

15/10/2010

Eu estava sentado, terminando uma cerveja enquanto namorava um conto que acabara de escrever quando Madalena bateu à porta. Levantei-me, matei a cerveja e fui atendê-la.

Ela usava uma blusinha azul marinho que só realçava a beleza e suavidade de sua pele branca. Abraçamo-nos por alguns instantes e no fundo da sala, pude ver-me colado ao seu corpo no reflexo de um espelho. O contraste de nossos corpos. Sua pele suave contra mim, nu da cintura para cima, com meu corpo castigado pelo sol, uma barba de dez dias e ombros de gorila. Através do espelho pude ver a violência que minha imagem se unia a de madalena. Subversiva como um estupro. Uma ofensa a sua ternura. Mas, ainda assim, a expressão de seu rosto transbordava tranqüilidade. Mesmo com uma figura animalesca e obscena se precipitando sobre ela. Daríamos um belo quadro se fossemos ilustrados por um bom artista pagão.

– Você está maravilhosa hoje. – Disse-lhe quando nos separamos.

– Só hoje? – Madalena riu.

Não a respondi.

Ela caminhou pelo quarto, observando tudo ao seu redor. Parecia-me flutuar. Um anjo flutuando em meu próprio apartamento. O meu caderno, que jazia aberto sobre a escrivaninha prendeu sua atenção por alguns minutos. Madalena era professora de literatura e parecia se interessar por meu trabalho. Às vezes eu me perguntava se ela realmente gostava de ler-me, ou se interessava por mim da mesma maneira que um biólogo se interessa por um animal portador de alguma anomalia.

Madalena olhou-me e por fim perguntou:

– O que anda escrevendo?

– Éééé, o mesmo de sempre. Contos curtos.

– Você deveria dedicar-se a um romance.

– Não tenho laudas suficientes.

– Posso ler este?

– Claro.

Alcancei-lhe o caderno e Madalena começou a ler sem ao menos sentar-se. Era a história de uma prostituta que se apaixonou por um padre, que por sua vez era um pedófilo homossexual.

Madalena e eu estávamos nos vendo há algum tempo. Ela era inteligente, limpa e sensível. Ao contrário das outras mulheres a quem eu estava acostumado. Eu tinha esse tipo de atração por mulheres hostilizadas. Ex-prostitutas, divorciadas, abandonadas ou que já tenham sofrido qualquer tipo de abuso. Elas vinham frágeis e eu as nocauteava com amor puro. Faziam-me sentir o máximo no início. Mas após algum tempo, todas passavam a agir dissimuladamente e foder com todos os caras que viam pela frente. E eu passava a imaginar que nem todas as mulheres eram vagabundas, apenas as que eu estava apaixonado.

Mas não Madalena, ela me fazia sentir diferente. Pela primeira vez em anos eu estava com uma mulher boa de verdade. A sensação de estar com alguém assim era ótima. O sentimento de satisfazer uma boa mulher me fazia sentir forte e inspirado. Eu me sentia eletrificado quando transávamos. Essa é a verdadeira imortalidade.

Ela terminou a leitura e eu pude perceber seu rosto se transformar. Sua tranqüilidade aparente tornando-se transtorno.

– O que você pensa que está fazendo com sua vida?

– O que você quer dizer com isso?

– Você passa o dia inteiro bebendo e escrevendo essas porcarias a mão. Histórias obscenas sobre prostitutas, mendigos e bêbados! Você não tem nada melhor a dizer? Está desperdiçando todo o seu tempo, desperdiçando todo o seu talento! Você é incapaz de escrever uma história descente de amor! Você é incapaz de escrever algo inteligente sobre política!

– Os deuses estão em guerra, não posso ignorá-los. Minha raiva é um presente para o mundo. O amor não pode salvar o mundo.

– Por que você é tão negativo? A vida pode ser bonita, porra! Quem você pensa que é para passar os dias trancado nessa espelunca, fingindo ser Henry Miller? Essa merda já bastou pra mim! Você não tem o direito de  pedir-me para conviver com isso. Não tem mesmo!

Seus olhos eram grandes e eu observei suas pernas longas por tempo suficiente para ficar excitado.

– Eu sou um gênio, querida. O único problema é que ninguém consegue enxergar os fatos.

Aproximei-me de Madalena e mordisquei seu ombro enquanto acariciava suas pernas.

– Você sabe como tratar uma mulher – Disse-me enquanto se despia e caminhava até o quarto.

Desabotoei minhas calças e a segui quarto adentro. Transamos até escurecer.

Mais tarde, enquanto ouvia Madalena mijar no banheiro, pensei em escrever uma história de amor. E foi isso que fiz.

A pílula

04/10/2010

A cápsula é uma associação composta por vitaminas e minerais. É um fitoterápico indicado como adáptogeno tônico e anti-fadiga nos estados de depressão e senilidade, age comprovadamente como anti-stress e atua sobre os sintomas do esgotamento físico e psíquico tais como insônia, dificuldade de concentração, transtornos da memória e depressão.

Uma enorme gota de suor escorre pela extensão de meu rosto enquanto leio a bula do remédio. O formato da pílula é bastante semelhante ao de uma bola de futebol americano. Sua cor é avermelhada e me lembra uma bala, um doce. O corante da pílula começa a se desgastar com o suor de minha mão, deixando a palma manchada em um tom rubro. Eu fecho os olhos e recolho a pílula com os dedos da outra mão, levo a boca e engulo com o auxílio de um gole de cerveja. Parado ali, sentindo o comprimido deslizar pela garganta me pergunto se a tinta está colorindo as paredes de minha traquéia. As gotas de suor continuam a escorrer por minha testa e eu as enxugo com as costas da mão, enquanto aperto os olhos e desejo que algo aconteça. Desejo ouvir uma explosão, um grito. Desejo sentir um baque, um tremor.

Mas nada acontece.

O mundo não sumira. Ainda existe stress, fadiga, depressão e senilidade. O remédio deve estar com algum defeito. Porém, sempre existiriam alternativas, como as drogas, a guerra, o álcool. Mas não adiantaria, me tornei insensível a todo esse tipo de coisa porque não me importa quão longa seja a viagem, o mundo sempre estará no mesmo lugar para me receber de volta.

Garotas para namorar, garotas para transar, garotas para amar. Você fecha o zíper de sua calça e está tudo acabado, não há outro lugar para ir. Por um momento você possui o mundo e tudo o que há de belo está ao alcance de suas mãos, mas o tempo é implacável. Uma foda acaba. Uma garrafa de cerveja acaba. Mas o mundo não. As ruas sempre estarão lá fora. Sempre existirão os mendigos, as prostitutas, os caminhões de lixo e os bares.

As pessoas não conseguem perceber a simplicidade da vida. A banalidade das situações mais comuns como morrer, comer, transar, matar ou dar uma cagada é inconcebível. As coisas precisam ter um significado maior do que de fato têm, porque a vida é curta demais pra não ter sentido algum. Todos começam a viver em grupo e cultuar coisas banais como sagradas, como se isso fosse salvar suas vidas, poupar suas existências do vazio da insignificância.

Assistindo o tempo passar eu me tornei insensível a todas essas coisas que não exerciam qualquer influência sobre mim. Não havia nenhuma sensação realmente excitante. Eu não podia entender como nadar contra a corrente seria o que iria manter minha sanidade, não podia entender tanta insensatez, como se alguma peça estivesse frouxa em mim.

Às vezes imagino que minha percepção se dê ao contrário. Envelheço e as coisas perdem seu valor para mim, não há nada de novo. Enquanto as descobertas de outras pessoas são tardias. Descobrem a guerra, a política, os males do casamento, as armadilhas da vida tudo tarde demais, beirando a morte.

Serei obrigado a conviver com tudo isso para o resto de minha existência, porque a vida é minha, mas não são minhas regras. O mundo é bem maior do que eu serei algum dia.

Ainda continuo de olhos cerrados, com um copo na mão esquerda. A pílula já deve estar em algum lugar em minhas tripas. Abro os olhos e pouso o copo vazio sobre a pia da cozinha. O mundo não explodiu, eu não engasguei e morri. Continuo vivo. Em algum lugar da cidade um mendigo fuça uma lata de lixo, enquanto caminho de volta a cama.