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O grande assaltante de ônibus

01/11/2010

Era um dia quente e eu estava no ônibus quando ele subiu. Eu não lembro para onde estava indo ou de onde estava vindo. Com o tempo esse tipo de informação perde sua importância.

Um dia morreremos, mas antes iremos perceber que perdemos nossas vidas inteiras trancados dentro de ônibus cheios ou em pé em filas de banco.

O cara passou pela roleta e gritou. “Eu irei me sentar, paguei a passagem como qualquer um de vocês e mereço escorar meu rabo em alguma cadeira.” E então ele se deslocou por entre as pessoas, algumas vezes tendo que empurrá-las. O ônibus estava realmente bem cheio.

Sentado de longe, eu o observava se aproximar de mim. Ele era um daqueles tipos barulhentos. Um que você não gostaria de ter ao seu lado, mas a sua sorte insiste em aproximá-los.

Depois de esbarrar em um cara ele gritou. “Ei, seu grande pedaço de merda. Cuidado comigo, fique fora de meu caminho, eu sou um assaltante perigoso.”

Então o grande assaltante sentou-se ao meu lado.

– Ei, sua vagabunda obesa, da próxima vez tente não passar óleo de motor no seu cabelo – gritou para uma moça a nossa frente.

Depois de uma brecada brusca do ônibus, ele olhou para meu rosto e então para minha bolsa e perguntou-me o que havia nela.

– E o que você tem com o que tenho na bolsa? – Perguntei-lhe.

– Ei cara, é bom você mostrar um pouco de respeito. Eu sou um grande assaltante. Eu sou perigoso, homem. Eu posso roubá-lo a qualquer momento.

Não respondi nada dessa vez.

– Ei, balofa. Quando eu passar por você seu cu não será perdoado! Qual a diferença entre seu rabo e sua cara? Eu não consegui encontrar nenhuma.

Enquanto ele falava, algumas pessoas riam, algumas pessoas olhavam com caras de indignação e outras apenas o ignoravam.

Eu não conseguia entender as pessoas que riam.

– Ei motorista, espere e verá. Eu vou assaltar esse ônibus! Eu sou perigoso, compadre. Eu sou a porra de um maluco. – Ele gritava enquanto ria e me cutucava com um dos cotovelos.

Eu não conseguia mais agüentar sua voz, já estava começando a ficar enjoado quando ele me perguntou novamente o que havia em minha bolsa. Eu só estava rezando por um acidente de trânsito, um pneu furado, falta de combustível, o retorno de Jesus Cristo ou a chegada dos cavaleiros do apocalipse.

Qualquer coisa que o fizesse fechar a maldita boca.

– Escute garoto, não me importo se você acha que é a porra de um assaltante, só cale a sua maldita boca ou eu te arremessarei pela janela. – Disse-lhe.

– Você se acha durão não é? Vou deixá-lo sobreviver, compadre, o mundo precisa de mais pessoas duronas como você. – Disse olhando para mim e então gritou – Estão me ouvindo? Esse cara aqui ao meu lado é um cara durão. Mas vocês não têm saída. Eu sou muito perigoso, estão me ouvindo? Muito perigoso!

Sua voz soava de um modo engraçado e algumas pessoas se puseram a rir. O grande assaltante ficava aborrecido e inquieto ao meu lado, se acotovelando e tentando achar uma posição confortável na poltrona. Ele se manteve calado até chegar ao meu ponto de ônibus. Eu desci e observei o ônibus fazer uma curva e sumir pelas ruas da cidade.

Eu já estava bem longe quando o grande assaltante estourou os miolos do motorista e anunciou o assalto.

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