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Confissões

03/12/2010

Eu já havia nascido há pouco mais de 3 anos. Mas a primeira coisa que minha memória consegue alcançar é sobre eu sentado em uma calçada, à porta de um lugar onde eu nunca havia estado antes, um lugar que nunca sequer havia ouvido falar a respeito. Várias pessoas que eu não sabia quem eram afagavam minha cabeça e choravam. Algumas choravam de forma contida, outras de forma mais desesperada. Eu não sabia direito o que estava havendo, mas essa situação toda me fazia chorar também. Eu não me lembro de estar perto de minha mãe ou mesmo de meu irmão, mas hoje consigo imaginar onde os dois estavam.

Um tio se aproximou e interrompeu-me de continuar arrancando pedaços de capim que brotavam do espaço entre um paralelepípedo e outro e me perguntou se eu não queria vê-lo pela última vez. Respondi que não.

Vê-lo quem?

Meu pai, sendo sepultado. Eu nunca o vi depois de morto. Na realidade, nunca vi uma pessoa morta pessoalmente até meus 14 anos. A única representação que tinha sobre a morte na época era a de um esqueleto, e esqueletos eram assustadores para mim. Meu tio não forçou a barra. Fez bem. Eu não queria ver o que fazia as pessoas chorarem mais alto. E não sei se me arrependo disso. Meu irmão mais velho teve uma série de pesadelos horríveis após ver o corpo de nosso pai. Eu não sei se eu agüentaria, minha imaginação é muito fértil para conseguir conter a loucura diante de tal tormenta.

A verdade é, não me lembro bem sobre o que aconteceu nesse fatídico dia, ou mesmo nos dias anteriores a ele. É como se minha cabeça soubesse que minha vida iria ser completamente diferente a partir daquele momento. Como se todas as informações que eu havia assimilado até então fossem simplesmente desnecessárias. Bem, se eu pudesse escolher, escolheria lembrar-me de tudo. Mas a vida não é bem uma coisa sobre a qual tenhamos controle.

O que me dizem sobre meu pai é que ele era um sujeito muito boa praça, que todos gostavam. Até que um dia ele sofreu um acidente de carro a trabalho. O homem que bateu nele fugiu do local do acidente. Deixou para trás o carro de meu pai, abandonado na estrada e completamente destruído. Ele estava com medo. Minha imaginação fez o resto. O que não consegui lembrar direito ficou a cabo de minha cabeça, de um modo que as lembranças que realmente tenho se confundem com as que criei. Uma bagunça que definitivamente influenciou a forma com que eu viria enxergar o mundo. Minha mãe perdoou o motorista fujão. Não registrou queixa na polícia, nem mesmo xingou o desgraçado. Deixou pra lá. Ela sempre deixa pra lá, desde que o problema não envolva meu irmão ou eu. E quanto a mim. Passei muitos anos de minha adolescência planejando em minha cabeça um crime que sei que nunca cometeria. Eu era um garoto confuso. Ainda sou.

Então veio a escola. Educação primária. Minha mãe era professora de português e literatura na escola onde eu estudava, não era uma escola lá muito boa, mas eu não tinha tantas dificuldades. Durante muito tempo eu fui um dos melhores alunos da turma. Um dos primeiros a aprender a ler. Expert em cobrir a linhas pontilhadas ou desenhar frutas e coisas do tipo. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo lá, e acho que nenhum dos garotos entendia. Mas isso tudo enchia minha mãe de orgulho e eu não precisava me esforçar o mínimo para conseguir manter as boas notas.

Eu não tinha muitos amigos, mas isso também não me fazia muita falta. Eu andava com dois garotos de minha sala. Um casal de irmãos. O menino, até hoje não sei bem por que, se entupia de cheetos e vomitava em quase todos os recreios. A menina, bem, dizem que ela está muito bonita hoje, depois de quase 20 anos. Nunca tive a oportunidade de vê-la e nem sei se isso me importaria. Então depois que o menino tinha o vômito em sua farda limpo, nós aproveitávamos o restante do intervalo apenas passeando ou correndo pela escola.

Eu posso não lembrar-me de muitas coisas a respeito de minha infância, mas lembro-me de sempre haver algum problema. Qual a magnitude de um problema de uma criança a um enfrentado por um adulto? É estranho comparar, mas eu era apenas um garoto, não conhecia outro tipo de atribulação a não ser as que eu tinha vivido até então. Esses pequenos problemas vêm, até hoje, consumindo minha sanidade como uma pastilha efervescente atirada em um grande copo cheio de água.

Tinha um outro garoto na escola. Eu não me lembro de seu nome, mas lembro bem de sua cara. Ele gostava de enforcar os outros meninos e puxar a pele detrás de nossos pescoços. Anos mais tarde eu briguei com um garoto por vê-lo fazer o mesmo a um cachorro de rua.

Uma vez, um rapaz que já estava prestes a se formar estava bisbilhotando a nossa sala através de uma persiana. Nós éramos garotos de 6 anos, então hoje me pergunto se ele tinha algum interesse em pornografia infantil. O que aconteceu é que alguma das outras crianças enfiou um lápis no olho dele através do vão da persiana e ele cismou que havia sido eu.

Talvez ele tenha me perseguido só pra me sacanear por minha mãe ser sua professora, ou talvez apenas por eu ser uma criança assustada. Mas mesmo na época, eu pensava que se soubesse que ele infernizaria tanto minha vida na escola, eu realmente teria enfiado o lápis em seu olho.

Deve ter sido então quando mudei de escola. Na nova escola, agora de freiras. Todos os garotos pareciam ter interesse por algum esporte. E para mim, esportes eram tão estúpidos quanto qualquer outra coisa. Na sala de aula eu não ia tão mal, mas havia deixado de ser um dos melhores alunos há muito tempo. Ao contrário do primário eu tinha que me esforçar bastante para conseguir atingir uma nota alta. Eu observava os outros garotos obtendo resultados exemplares e depois olhava as minhas notas medíocres. Para mim eu havia atingido o ápice de minha inteligência, não conseguiria aprender mais nada que qualquer professor tentasse ensinar. Mas, mesmo assim eu era obrigado a acordar todos os dias às seis da manhã para ir pra escola. E eu simplesmente não conseguia entender a razão disso. Passei então a ignorar tudo o que me incomodava na sala de aula. Fazia questão de não aprender álgebra, problemas matemáticos ou ciências. Parecia ser apenas mais uma tarefa estúpida.

Não tomávamos café da manhã em minha casa. Eu não sei bem se é por que não tínhamos tempo na época ou outro motivo qualquer. Só sei que o caminho que tomávamos para ir à escola, eu mamãe e meu irmão, cruzava a rua mais malcheirosa da cidade. O antigo mercado de peixes. Era difícil encarar aquele fedor inteiro de barriga vazia e também haviam tantos outros caminhos para tomar. Não sabia porque minha mãe sempre insistia para irmos por aquele. Acho que hoje é tarde para questioná-la. Uma das primeiras atitudes que tomei depois que passei a ir e voltar sozinho da escola foi evitar completamente aquela antiga rota, algo que tornou minhas manhãs um pouco mais agradáveis.

Nos intervalos eu brinquei algumas vezes com os outros garotos. E é por isso que hoje sei que jovens tem muito mais culhões do que qualquer adulto. Eu não conseguia assimilar as regras de qualquer um dos jogos. A única semelhança entre eu e os outros garotos era a incrível capacidade de me machucar. Jovens não conhecem a vida. Jogam pelo agora. Apostam todas as fichas no momento. Jogam uma partida de futebol como se suas vidas dependessem disso. E quando percebíamos que íamos falhar, nos estropiávamos pela quadra de cimento batido. Quedas, arremessos, faltas. Quando se cai no chão duro de cimento ossos quebram, a carne machuca. Durante esses dias eu voltava para casa coberto de hematomas e ainda assim não conseguia sentir-me satisfeito com tudo aquilo. Houve uma vez em que fraturei um dos braços e só contei para mamãe passados 2 dias. Bem, essa vida não era pra mim.

Foi assim que me tornei um “veadinho”, esse era o jeito que os garotos chamavam quem não praticava nenhum esporte na hora dos intervalos. “Bem foda-se isso”, eu pensava, “não vou estourar meu rabo na porra dessa quadra só pra que esses filhos da puta achem que eu sou um deles.”

Com o tempo vieram as garotas e meu primeiro impulso era fugir delas. Eu tinha 12 anos e não sabia o que fazer a respeito. A situação me causava dor de barriga e eu não sabia o que dizer. Depois de um tempo, quando eu comecei a aprender o que dizer e a vontade de estar com as garotas veio, vieram também as espinhas. Eu as olhava no espelho. Caroços brancos espalhados em minhas bochechas e ao redor de meus olhos. A testa, único lugar de meu rosto livre delas, era coberta por meu cabelo. Grandes merdas então, ahn? Eu as espremia e um caroço branco saia e então vinha um fio de sangue. Repetia isso todas as manhãs e ainda assim não conseguia me livrar delas. Ainda hoje tenho algumas. Talvez por isso não goste de espelhos ou tirar fotografias. Encarar-me no espelho enquanto corto os cabelos por mais de 15 minutos parece uma tortura.

Assim eu era um “veadinho” de 13 anos, com notas regulares, sem chances com nenhuma garota realmente bonita e sem a mínima vontade de começar a praticar algum esporte ou me dedicar mais aos estudos. O que eu via nos livros em sala de aula era tão distante do que eu estava vivendo. Achava que os professores estavam me tapeando. Eu, vítima de uma grande brincadeira de mau gosto feita por alguém que organiza o destino dos sujeitos que vivem nesse planeta. O que eu faria durante o meu tempo de escola? Até mesmo conversar durante os intervalos era pedir demais pra mim, eu não conseguia manter uma conversa de mais de 5 minutos com quase nenhum dos colegas de classe.

Então em algum lugar nessa época conturbada apareceu-me a literatura. Sem ter pra onde ir, subia até a biblioteca da escola. Eu lia sobre dragões. Cavaleiros e suas façanhas para resgatar princesas e rumar em direção a uma felicidade eterna. Eu estava encantando com a forma com que podíamos nos transportar para outro lugar apenas lendo aquelas palavras. Porém o conteúdo não me deixava satisfeito. Esses livros pareciam tão distantes de mim quanto os livros didáticos, mas mesmo assim serviam pra passar o tempo. Enfim nas aulas de literatura conheci grandes nomes como Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Souza. Eu lia todas essas obras desses caras cheios de dor e achei que de algum modo a literatura poderia me salvar.

Eu voltava à biblioteca e procurava por mais livros. Não era fácil achar livros bons em uma biblioteca de uma escola de freiras. Para saber se o livro era bom eu abria a primeira página e lia o primeiro parágrafo, e se este parágrafo parecesse bom eu continuava a ler o outro, e então o outro. E foi assim que conheci Dostoievski, Tchekhov, Kafka, Karl Marx e os outros. Eu percebi então que as histórias não precisavam de dragões ou de amores perdidos para serem grandiosas. Histórias eram feitas de homens, assim com eu, ou como fosse que possa estar lendo. Homens comuns, mas dotados de sentimentos e representações da realidade que apenas pertencem a eles próprios. Assim comecei a experimentar, rascunhar histórias que nunca cheguei a terminar, nada nunca parecia ser bom o suficiente. Nada parecia ser suficiente para fazer as outras pessoas sentirem o que eu sentia também.

O tempo passou e veio a bebida. A primeira vez que bebi pra valer tinha 15 anos e acabava de ter dado o fora em uma namorada. Eu gostava bastante da garota. Mas a mãe dela era o diabo e eu não sou nenhum tipo de santo. Eu não consegui agüentar. É difícil deixar pra trás algo que você gostaria de carregar sempre consigo. Então eu e meu irmão fomos ao um bar perto de nossa casa e tomamos umas cervejas, por sua conta. A verdade sobre a bebida é que nós não nos tornamos outra pessoa quando bebemos. O mundo é que deixa de nos agarrar pelo pescoço e nossas defesas finalmente caem. Podemos ser livres pra agir do jeito estúpido que sempre desejamos agir, mas alguma coisa não nos permitia. Eu não consigo imaginar viver sem o acesso a esse tipo de possibilidade vez ou outra.

Drogas nunca funcionaram pra mim. Pelo simples motivo que eu não consigo tolerar drogados. Nada exagerado, a presença deles me incomoda tanto quanto a presença de qualquer outra pessoa, mas a áurea de santidade que eles atribuem a toda porcaria que estão fazendo me deixa enjoado. Não sei lidar com a maneira com que as pessoas precisam se agarrar em significados inventados para forjar uma felicidade que não existe. Sinto-me no colégio de novo, fingindo gostar de esportes pra ser aceito como mais um novo membro no clube dos babacas.

Vieram mais garotas com o tempo e uma delas me trouxe Charles Bukowski. Se você estiver lendo isso, doçura, muito obrigado. Com Bukowski veio John Fante, Hemingway, Dos Passos, Henry Miller, Pedro Juan Gutierrez, Sherwood Anderson, e.e. cummings e os outros.

Esses caras educaram meus olhos a enxergar o mundo da maneira como ele se apresenta de verdade. E não daquele jeito que você vê na TV ou no cinema. Através da literatura eu percebi que não estava sozinho. Era mágico ler pela primeira vez um conto de John Fante ou uma poesia de Charles Bukowski. Sensações que dificilmente provarei de novo. O mundo mostra a cara pra você e depois o engole, fazendo que você se acostume com a vida como ela é. Não há espanto, não há estranhamento, há pouquíssima vertigem. E assim a gente vai vivendo.

Eu passei a encarar a literatura com mais fidelidade. Me compromissar em ao menos finalizar meus textos. Minha cabeça se tornou uma fábrica de situações impensáveis e eu comecei com os contos curtos em primeiro plano, já que nunca fui um bom poeta.

Veio a faculdade, o trabalho, a obrigação (ou a necessidade) de ganhar dinheiro. O que tenho a dizer sobre a faculdade é que ela é muito semelhante a escola, a única diferença é que os alunos da faculdade acham que sabem de alguma merda sobre a vida. Do mesmo modo que eu não entendia os colegas do colégio, não entendo os da faculdade. Não entendo aqueles que a levam a sério demais, tampouco aqueles que não a levam nem um pouco a sério. A falta de compreensão acerca de algumas coisas da vida me faz levantar duas teorias sobre mim. A que eu posso ser retardado. Ou a que simplesmente as coisas não são postas de maneira clara o suficiente. Há sempre camadas, véus que vão caindo e a gente vai compreendendo mais um pouco com tempo.

E há uma garota. Uma garota doce a ponto de me fazer agir com gentileza. Uma garota que não citarei em meio a questionamentos, talvez por eu considerá-la uma das poucas certezas sobre o que sinto pelas pessoas.

O fim ainda não chegou. Para muitas pessoas nossa geração testemunhará o fim do mundo, que se aproxima pacientemente. Se realmente for verdade, vai ser o diabo de um espetáculo não?

Cabe aguardar. Esperar que o fim venha ligeiro, ou que venham coisas pelas quais valham a pena viver mais um pouco. Situações verdadeiramente significativas ou mesmo excitantes que às vezes encontramos perdidas no meio desse monte de coisa nenhuma.

Ainda há tanto sobre o que escrever.

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