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Indo a lugar nenhum – 2

09/01/2011

Um cara do Grupo Fortuna ligou-me dizendo que eles analisaram meus testes e gostariam que eu aparecesse para conversarmos a respeito do emprego. Então desliguei o telefone e fui ao banheiro, e me banhei e fiz a barba, realmente tentando melhorar minha aparência. Então saí de casa, mas dessa vez levando algum dinheiro pra um ônibus.

Chegando lá um rapazote me encaminhou até a sala do sujeito que havia me ligado, que por sua vez disse-me que ele não era o cara com quem eu deveria falar. Eu deveria procurar por um sujeito chamado Parreira. Primeira porta a esquerda, logo após do banheiro.

A sala tinha algumas janelas de vidro e pude ver que Parreira falava ao telefone, então bati na porta com as costas da mão. Ele olhou pra mim através do vidro e sinalizou para que eu entrasse. Sentei-me enquanto ele continuava falando ao telefone. Ele não parecia se preocupar em eu estar ouvindo. E nem deveria, não consegui me concentrar no que ele conversava então olhei ao redor.

Após alguns minutos ele desligou e desculpou-se por deixar-me esperando. Sem problemas, eu disse. Ele me disse que analisaram minhas respostas nos testes e que gostariam que eu ficasse com o trabalho.

Eu quase não acreditava no que ele estava dizendo. Eu não entendia porque além de todos os caras eu parecia ser a pessoa certa para o trabalho. Quero dizer, eu escolhi algumas das respostas aleatoriamente e os outros caras não pareciam ser tão piores do que eu. Eu me perguntava que tipo de respostas os outros sujeitos podiam ter assinalado para que eu houvesse sido considerado o mais apropriado para o trabalho.

Que grande surpresa.

O mundo sempre nos pegando desprevenidos e arrancando nossas calças na frente de uma platéia inteira. Quando achamos que não há como ser pior do que somos sempre aparece alguém mais fodido.

“Nós do Grupo Fortuna, como uma empresa familiar, tentamos tratar nossos funcionários como se fizessem parte de uma grande família,” disse ele. “Porém, como pais confiantes, esperamos disciplina e boa fé nas suas ações.”

“Eu entendo.”

“O motivo de eu estar tocando em um assunto como esse é que estamos buscando ter um pouco mais de precaução ao contratar algum novo funcionário.”

A verdade é que Parreira parecia ser um marionete esculpido em um pedaço de carvalho. A forma de sua boca não mudava entre uma palavra e outra, apenas se movia para cima e para baixo emitindo sons que pareciam haver sido programados por uma outra pessoa. Uma outra pessoa acima de tudo isso.

Ele começou a falar sobre o trabalho. O Grupo Fortuna possui várias empresas, e essas empresas possuem vários clientes, então a relação entre eles deveria ser a mais agradável possível. Em algum lugar eu entraria criando cartões de agradecimento, aniversário e qualquer outro tipo de peça para campanhas de relacionamento que eles resolvessem desenvolver. Parecia ser um trabalho fácil e limpo, na verdade.

“Bem, o grande problema é que último cara que esteve na posição em que você logo estará bateu na cara da garota que atendia o telefone e anotava os pedidos. Por isso pedi para conversar com você pessoalmente, eu precisava me certificar que você é um sujeito em que podíamos confiar, para não sermos surpreendidos novamente com uma coisa tão chocante. No fim das contas tivemos que demitir ambos, afinal os dois foram os culpados por essa situação desagradável.”

O que diabos essa garota deve ter feito para deixar o cara tão puto a ponto de esbofeteá-la? – pensei – Deveria ser uma vadia ou o cara realmente devia ser um doente e tentou apalpar suas pernas enquanto trabalhavam. Pro inferno com eles.

“Entendo, senhor. Garanto que não terão esse tipo de problemas comigo. Tentarei agir da melhor maneira possível.”

Da melhor maneira possível, essa era uma promessa que eu podia manter.

Então apertamos as mãos e ele me pediu que eu voltasse na segunda-feira para trazer alguns documentos, assinar meu contrato e ser propriamente apresentado ao trabalho.

E foi assim que eu me tornei um fantoche corporativo.

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Indo a lugar nenhum – 1

01/01/2011

É depois de uma longa caminha sob um sol de rachar que você se dá conta de que não vai chegar a lugar nenhum. Eu usava uma camisa azul e todas as vezes que o tecido tocava alguma parte da minha pele ficava marcado por uma nova mancha de suor.

Eu carregava uma pasta que ia revezando de mão em mão cada vez que ela se tornava pesada demais para carregar com uma mão só. Por alguma razão eu evitava trocar a pasta de mão quando passava por alguma mulher bonita. Talvez eu estivesse envergonhado por parecer um frangote. Mas o que é não conseguir carregar uma pasta, comparado a não ter dinheiro suficiente para um mísero tíquete de ônibus e estar com a roupa inteira manchada de suor?

Esse cara de uma companhia de empregos me telefonou convocando-me para uma entrevista e eu estava a caminho. As coisas não iam exatamente mal. Eu estava sóbrio há alguns dias e ao contrário do que pensávamos minha namorada não estava esperando um bebê. Além de me tornar pai, eu não via qualquer outro motivo bom o bastante para arranjar um trabalha, mas eu poderia contar com uma grana a mais. Menos fraldas e mais cerveja, afinal.

Chegando ao endereço que me passaram, um sujeito me acompanhou até uma sala. Cerca de 8 rapazes esperando. Todos procurando parecer eficientes com suas caras milimetricamente barbeadas.

No fim da sala, uma mulher estava sentada atrás de uma mesa folheando alguns papéis. Eu sentei próximo aos outros rapazes e tentei copiar suas expressões compenetradas enquanto esperava para ver se a mulher tinha pernas tão ótimas quanto a sua cara demonstrava ter.

Ela distribuiu uns papéis entre nós e recolheu nossas pastas que continham fotos 3×4, currículos e o que mais achássemos importante trazer.

“Esse documento que eu os entreguei é apenas um pequeno teste.” disse ela. “São situações do cotidiano, e preciso que marquem as alternativas que mais se assemelhem com a atitude que vocês tomariam nas determinadas situações. Lembrando que não existe resposta certa ou errada, isso é apenas um teste de personalidade.”

Olhei ao redor. Os rapazes a observavam atentamente e assentiam com a cabeça enquanto ela passava outras instruções. Eu apenas me preocupava em não ser surpreendido enquanto olhava para seus peitos.

Então a dama girou nos calcanhares e caminhou de volta para sua mesa. Mas que grande pedaço de rabo. Eu precisava deste emprego.

Eu comecei a ler as situações no documento do teste e nenhuma alternativa se parecia com algo que eu realmente faria. Então simplesmente comecei a marcar as opções que me pareciam mais sensatas.

Depois de terminar com a papelada caminhei até a mesa para reaver minha pasta. Saí deixando para trás alguns dos caras que ainda não tinham terminado com todos os testes.

Do lado de fora do escritório o sol brilhava fraco e seria uma bela caminhada de volta para casa. No meio do caminho um garoto que deveria ter uns 10 anos começou a caminhar ao meu lado e puxou firmemente pelo pulso.

“Me dê alguns trocados,” disse ele.

“Olhe pra mim garoto, eu não tenho dinheiro.”

“Mas você tem uma pasta. Os outros homens que saem daquele prédio carregando pastas têm bastante dinheiro.”

“Bem, eu não sou como eles. Acho que nunca serei.”

O garoto fez uma careta e abaixou suas calças balançando seu pequeno pinto para mim. Ele parecia não se preocupar com o que eu faria a respeito.

“Garoto,” disse eu. “você é livre de uma maneira que eu jamais serei.”

Isso provavelmente foi a coisa mais sincera que jamais alguém lhe disse, mas ele apenas continuou balançando seu pequeno pênis até que eu fosse embora.