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Como um exército

26/02/2011

Durante todos os primeiros anos de colégio eu nunca tive uma chance de jogar futebol. Eu não deveria me importar com isso, mas a minha vida inteira se resumia a ir à escola. Sair fracassado na única tarefa que me era cobrada dava uma sensação horrível. E o futebol realmente parecia ser uma coisa bem importante.

Eu era um homem marcado pelo erro. Arruinara todas as chances de provar o meu valor nos esportes e nunca mais restaria pra mim uma vaga em qualquer time. Eu poderia jogar voleibol, se eu quisesse, mas era humilhante. As meninas jogavam voleibol.

Eu era o único cara da classe a não praticar esporte nenhum, talvez o único cara do MUNDO. Eu tinha visto na TV, caras sem braço praticavam esportes nas olimpíadas.

Ficava sentado num canto esperando o intervalo acabar.

Os garotos da minha turma nunca conseguiam arrumar uma bola decente, as crianças maiores sempre tinham prioridade, então eles se viravam com o que podiam. Garrafas de plástico, bolas de meia, tampas de garrafa, qualquer coisa que pudesse ser chutada e perseguida. Certa vez chutaram uma lata de refrigerante amassada e ela acertou direto na cara de um dos meninos da outra turma. Alguns dos garotos disseram que ele perdeu o olho. Acreditei neles.

Um dos meninos endinheirados da classe terminou de chupar o seu refrigerante, atirou a garrafa no chão e disse:

– Certo, vamos jogar futebol.

Os caras que mais sabiam jogar tinham o direito de escolher os seus times. Cada um escolhia um homem, até que todos tivessem acabado. Nunca sobrava vaga alguma para mim.

Escutei de longe:

– Ei, falta um jogador no nosso time. Vamos ter que chamar o Bravo.

– O quê?

– Ele é um otário!

– Vamos jogar com um a menos!

– Olha gente, isso não parece certo. Eu não vou jogar contra um time com um homem a menos.

– Ei bravo – um dos garotos gritou -, quer bater uma bolinha?

– Ok galera, vamos cagá-los à pau – respondi

Era a minha chance. Eu só precisava não fazer algo estúpido, mas isso é bem difícil quando não temos a mínima idéia do que estamos fazendo.

Começamos a jogar. As meninas nos assistiam. Algumas até usavam maquiagem. Éramos famosos!

A garrafa amassada rolava de um lado pro outro. Eu me preocupava em correr atrás dela, sabendo que quando a alcançasse, não saberia o que fazer. Alguns dos meninos não estavam nem aí para jogar. Só queriam exercitar sua violência. Muitos de nós levávamos vidas muito estúpidas e com pouquíssimo amor de quem quer que seja. Garotos assim só queriam se sentir no controle. Era duro demais.

Aquilo não era futebol de verdade, o que importava mesmo era se destacar no meio da multidão. Eu corria e gritava, tentava me misturar, tentava não parecer tão sem jeito. Algumas vezes a garrafa batia na minha canela e espirrava para longe, eu fingia que era de propósito.

Numa dessas a garrafa veio parar nos meus pés. Os garotos corriam na minha direção. TODOS eles. Eu não sabia o que fazer, estava nervoso pra burro. Então pensei: foda-se essa merda, vou encher o pé.

Foi terrível.

A garrafa bateu na parede e ricocheteou para longe, eu a acompanhava com os meus olhos. O miolo da minha canela doía. A garrafa passou rasgando por todos os meninos e atingiu o lanche de um cara que nem estava jogando.

Ele olhou para sua comida no chão e para mim e então disse:

– Seu desgraçado, eu vou matar você!

Eu queria tê-lo acertado na cara.

– Você me deve 50 centavos!

– Escuta, cara eu não tenho dinheiro.

– Ou você me compra outro lanche, ou teremos uma briga!

Os outros garotos pararam de jogar e nos rodearam, alguns ficavam atiçando o outro menino. Égua, vai deixar? Eu não deixaria se fosse comigo. Olhe só pra ele, é um maricas! Acabe com ele.

Uma briga era muito mais interessante que futebol. Para mim que nunca soube jogar bola, não saber brigar era mais humilhante ainda.

O menino veio ciscando na minha direção e me acertou a orelha.

Eu gelei.

Não foi a dor, foi a surpresa. Ele ficou parado na minha frente e um dos garotos gritou.

– VAMOS BRAVO, MEXA ESSE SEU RABO!

Foi como um tiro de largada. Parti pra cima dele de braços abertos. Acho que o acertei no pescoço. Ele era bem maior do que eu, mas caiu levando as mãos à garganta.

Eu esperei ele levantar. Não sabia direito o que eu estava sentindo, mas era gostoso. Queria que ele levantasse para eu enchê-lo de porrada.

Mas ele não levantou. Com as mãos agarradas ao próprio pescoço, ele chorava e puxava os meninos pelas calças.

– Acho que você entupiu a garganta dele pra dentro!

– Cristo! Acho que ele vai morrer!

– Corram, alguém vai chamar a coordenadora.

A situação se agravava a cada minuto. A coordenadora significava problemas.

Depois de algum tempo ela chegou, olhou todos os outros garotos e perguntou quem era o responsável por aquela bagunça. Todos os braços apontavam pra mim. Ela me puxou pelo braço e me arrastou até sua sala. O garoto continuava sem fôlego, jogado sobre um dos bancos. Achar um culpado parecia mais importante do que ajudá-lo.

Ela sentou-se atrás de sua mesa e começou a torcer clipes de papel.

– Você realmente machucou aquele garoto não é? Por quê?

– Eu não sei.

– Os pais dele vão querer saber o porquê, meu filho. Você acha que essa escola é alguma espécie de academia de boxe?

– Ele disse que iria me matar! Eu precisei reagir.

Ela parou e escolheu bem suas próximas palavras. Queria me fazer sentir mal pelo o que eu tinha feito. Esse parecia ser o seu trabalho. 12 diplomas estavam enquadrados em sua parede e seu trabalho era ferir crianças. Que merda de emprego, pensei. Seus cabelos tinham uma cor estranha. Não eram cores naturais. Por trás dos óculos, ela me encarava como se estivesse a contemplar um grande monte de bosta.

Nada naquela sala parecia certo. Nada estava à meu favor.

– Eu vou escrever um bilhete em sua agenda. Quero vê-lo assinado por seu responsável amanhã.

– Tudo bem – eu disse

Carimbou minha agenda. Notei que ela caprichou na ortografia. – Não queríamos desentendimentos, certo? – Ela alcançou-me a agenda fechada e eu a coloquei dentro de minha mochila. Eu não queria nem olhar. Queria fingir por algum tempo que aquilo não estava acontecendo.

Saí da escola e desci até o pátio, os outros garotos estavam brincando. Eles me viram e correram até mim.

– Ei, Bravo, você pegou aquele desgraçado, não?

– É! Os caras da turma agora o chamam de goela!

Todos riam, estavam contentes. O acontecido realmente parecia ter sido uma coisa importante. Um dia pra ser lembrado. Caminhei pelo pátio como um exército de um só homem. Eu não mais precisava do futebol.

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25/02/2011 – 13:56

25/02/2011

Eu estava zapeando pelos canais de TV até que cheguei nesse programa. Era uma espécie de reality show e os participantes estavam disputando uma prova de resistência. A tarefa era a seguinte: um quarto tinha vários bancos, cada um com um assento diferente. Os participantes tinham que sentar nesses bancos, revezando seus rabos até que um deles achasse que estava cansado daquela merda e desistisse. Alguns assentos tinham pedras, pregos e até uma maldita bola de boliche.

Qual é o problema das pessoas que trabalham na televisão?

Será tão difícil fazer algo DECENTE?

A televisão está lá todo santo dia desafiando as nossas inteligências, tentando nos fazer de panacas. Os programas de comédia são tão ruins que são obrigados a utilizar gargalhadas gravadas para avisar aos telespectadores o momento certo de rir (e como riem esses desgraçados).

Não há alma, não há vida nenhuma naquilo tudo. Então eles exageram. Qualquer idiotice é anunciada como a 3º guerra mundial.

Algumas pessoas gostam de ver filmes de ação para saber como caras durões agem. Eu digo, escolha qualquer trabalhador comum e lhe dê um salário mínimo e uma boa noite de sono e ele chutará o cu de qualquer cara durão da TV.

Eu chutaria.

Até os filmes de romance são uma piada.

Então quando aparece alguém com tenacidade suficiente para conseguir fazer alguma coisa que preste ele é censurado ou cortado. O canal não quer ofender os seus anunciantes.

Eu me sinto deprimido vendo televisão. Penso sobre quantas pessoas estão assistindo aquilo e se esbaldando. Sinto-me um cara sozinho no mundo.

Então escrevo.

23/02/2011 – 18:16

23/02/2011

Escrever está apertado como uma luta de boxe. As palavras saem e não há nenhuma folga entre elas. Sinto-me numa corrida com o mundo desabando às minhas costas. É uma sensação quase boa.

Continuemos.

Tudo o que um cara precisa é de uma boa chance. Alguém está sempre controlando quem merece ou não merece uma chance. Vincent Van Gogh nunca teve chance nenhuma. No seu tempo a concorrência era muito maior e o cara encarregado de distribuir as chances decidiu economizá-lo. Guarda-lo para mais tarde.

Era tarde demais. Vincent estava morto. As pessoas vêm tarde demais os holofotes, microfones, repórteres, o reconhecimento. Todos vêm tarde demais. São como sanguessugas procurando algo que os mantenha vivo, mas se arrastam do seu próprio modo, o modo que mais parece conveniente. Mas eu sou um cara muito jovem. Estarei pronto para chutá-los no rabo quando (se) eles vierem.

Eu estava comendo bolachas esperando o ônibus hoje mais cedo quando esse garotinho chegou com sua mãe. Ele deveria ter algo em torno de 5 anos (eu nunca soube identificar a idade de crianças por sua aparência). De qualquer modo ele ficou me observando enquanto eu comia minhas bolachas, parecia interessado. Eu tive vontade de lhe oferecer algumas, mas sua mãe talvez estranhasse então as guardei em minha bolsa.

Ele usava um uniforme de uma escola pública, seu cabelo se parecia com o meu, quando eu era criança.

 A mãe do menino era uma criatura repugnante. Era grande e velha e gorda e não parava de resmungar sobre os ônibus estarem demorando, sobre o peso da mochila do garoto e sobre ele ficar querendo ir para a rua o tempo inteiro. “CRISTO! O QUE VOCÊ CARREGA NESSA BOLSA, MALDITAS PEDRAS? VOCÊ NÃO SENTE PENA DA SUA MÃE, SEU PEQUENO DESGRAÇADO? E ONDE ESTÃO ESSES MALDITOS ÔNIBUS? ELES SÓ PODEM QUERER ME DEIXAR MALUCA!”

Eu me afastei deles, não queria ficar perto dela. Senti pena do garoto. O que diabos podemos esperar de uma criança crescendo com uma mulher daquele tipo como exemplo?

Ela começou a espirrar e tossir e assoava o nariz com as mãos e as esfregava na mochila. Entupindo a criança com germes. A cada vez que ela espirrava e esfregava as mãos, uma mancha úmida aumentava nos fundos da mochila do garoto. Era detestável.

Dois rapazes também esperavam o ônibus. Conversavam. Eram estudantes. Eles pareciam não estar percebendo o que estava acontecendo ali. Eu estava.

Eu estava começando a ficar enjoado quando avistei do outro lado da rua uma garota que morava em nossa vizinhança. Eu não a via há muito tempo. Ela estava ótima, apesar de ter engordado um pouco. Eu me pus a olhá-la e tratei de esquecer do menino e de sua mãe repugnante. A garota me viu. Não desviei meus olhos dela. Eu queria que ela soubesse que eu estava a olhando.

O esticar da corda

22/02/2011

Eu estava prestes a terminar tudo, procurando nos bolsos da calça algo para me ajudar a esticar a corda quando achei alguns trocados.

A morte está à espreita em todo o lugar. Sempre esperando descuidos. Esperando um dobrar da esquina. Esperando-nos atravessar a rua fora da faixa. Esperando por uma briga de bar. A paciente espera para nos ver agonizando. Tudo que podemos fazer para enganá-la é escolher a nossa própria hora.

Soltei a corda e depositei os trocados na palma da mão. Algumas moedas eram de 1994. Por quais bolsos elas passaram até chegar ao meu? É uma coisa doida pra pensar.

Decidi que seria uma grande bobagem desperdiçar esse dinheiro, já que muito provavelmente eu deveria ter feito algo profundamente desagradável para ganhá-lo. Alguma dessas coisas estúpidas que fazemos por uns trocados. Deixar esse dinheiro para trás me levaria direto ao inferno.

Deixei o apartamento e a corda para depois.

Desci em direção ao bar do Tibério.

Não estava lotado. As comidas ficavam expostas no balcão. Sentei-me e pedi um café. Tibério me olhou na cara e caminhou penosamente até a cozinha do bar. Sobre nós, um quadro com o rosto de Padre Cícero velava o estabelecimento.

Ele trouxe o café. Estava forte demais. Bebi alguns goles e pensei em pedir um pouco mais de açúcar, mas desisti. É melhor não abusar da paciência desses caras. Ele podia mandar algum dos entregadores cuspir ou ejacular no meu café e esse era o tipo de dúvida que eu não queria levar de volta até o apartamento.

Eu estava aproveitando meu café quando esse sujeito sentou-se ao meu lado e pediu uma cerveja. O rosto era muito redondo. Tinha olheiras profundas. Era duro olhar para ele.

– Você está parecendo merda pisada, amigo. – disse eu

Não havia nada a me preocupar. Tudo estaria acabado e eu estava em paz. Poderiam me colocar perante um exército e ainda assim eu cagaria na cara dos soldados.

– Você também, na verdade. – ele respondeu

O meu reflexo nas paredes finas da xícara de vidro não o deixava mentir. Ele era um homem corajoso ao dizer isso a um completo estranho nessas bandas. Poderia ser um cara como eu.

– Você bebe? – perguntou

– Claro.

Ele pegou um dos copos do balcão e o encheu de cerveja pra mim. Ao contrário do café, a cerveja descia suave. Uma massagem na garganta.

– Obrigado, compadre.

– O que você faz pra viver? – perguntou ele

– Sou escritor.

– E se não fosse escritor, o que faria?

– Boxe amador.

– E qual é a relação nisso? – perguntou após servir-me mais um copo.

– Todas do mundo. Alguns idiotas é que aumentam as diferenças.

– Isso é verdade. Temos uns esportistas bem burros por aí e…

– Falo dos escritores.

Bebemos mais algumas garrafas e o sujeito foi bem amigável. Ficava calado olhando para o tempo. Conversávamos um pouco, não nos deixando levar pelo desespero que algumas pessoas têm em manter contato o tempo inteiro. Parece que não calam a boca nunca!

– Escuta, eu não perguntei o que você faz.

– Eu sou corno. – precipitou-se ele

– Eu não sabia que isso estava dando dinheiro. Onde pego meu cheque?

– Olha cara, eu estou tentando abrir meu coração aqui, tudo bem? Não quero que você pense que eu sou um bebê chorão ou que eu sou uma espécie de veado. Só não faça pouco de meus sentimentos. Eu estou sofrendo, porra.

– Tudo bem, tudo bem, compadre. Vamos me fale dela.

– Ela estava fodendo com um colega de trabalho meu. Eu chamei uns colegas da firma para tomarem uma cerveja lá em casa. Pensei em ser camarada e é assim que me mostram gratidão. COMENDO MINHA MULHER EM MINHA PRÓPRIA CAMA. Aqueles desgraçados, mal virei de costas e já enfiaram um dedo sujo no meu rabo!

– Está tudo bem compadre, coloque tudo para fora, vamos.

Ele abriu sua carteira e retirou um pedaço de papel. Uma fotografia de sua esposa. Alcançou-me a fotografia, ela era bonita e parecia saudável, agradável aos olhos.

– Sua puta! – eu disse – Como diabos você pôde ter coragem de fazer isso com meu amigo aqui? Sua puta!  Sua puta! SUA PUTA! PUTA!

– Ei amigo, está tudo bem, vamos com calma. – disse puxando a fotografia de minhas mãos.

Ele estava acabado. Não parava de pedir mais e mais cerveja, todas em sua conta. É perigoso beber com um homem assim nessas bandas da cidade. As pessoas farejam a grana e tentam nos extorquir o tempo inteiro. Os galegos e suas quinquilharias, as putas se insinuando. Até mesmo sua esposa, oferecendo AMOR em troca de uma vida confortável montada na sua grana e no pau do seu amigo.

Vivemos em uma sociedade cheia de ladrões. Políticos, médicos, vendedores, advogados e bebuns e mendigos, todos tentando arrancar algum pedaço de nossos pertences.

– Eu a matei. – ele disse – matei ela e aquele filho-da-puta que dizia ser meu amigo. Ainda há pouco, antes de vir para o bar, peguei os dois transado. Os diabos estavam cheios de tesão! Nunca vi ninguém foder daquele jeito. Fiquei enojado. Em nome de Deus, eu tinha que parar aquilo. Então fui até meu armário e busquei a .45 e atirei na cabeça do filho da puta. Diabos, o pau dele ainda estava dentro dela! Ela tentou se explicar, mas eu atirei em sua barriga. Saí e a deixei agonizando sobre o nosso tapete. A porra do tapete. Ela sempre reclamava das minhas sujeiras no tapete. Agora está lá derramando todo aquele maldito sangue sobre ele.

– Olhe, companheiro. Eu não estou aqui para julgar ninguém. – respondi.

Não havia nada que eu pudesse dizer. A morte realmente estava em todo o lugar.

– Eu não quero ir para a cadeia. E se alguém tentar comer o meu rabo? Eu não sobreviverei na cadeia. O que devo fazer? Oh, Cristo.

O sujeito chorava. Seus olhos estavam vermelhos como tochas. mas já não era tão duro olhar para ele. Ele estava destruído, arregaçado como uma jaca atirada do 10º andar.

– Escute, compadre, por que você não volta para casa e liga para os tiras e avisa que os encontrou daquele jeito? Eles irão acreditar em você. Vão perceber que ela era apenas uma puta se aproveitando de você e que o amante atirou nela e depois resolveu esburacar a própria cabeça. Você parece já estar pagando por seu crime, não precisa de uma cadeia onde provavelmente irão comer o seu rabo.

Ele olhou para mim e repousou uma nota das grandes sobre o balcão e deixou o bar sem dar uma palavra. Parecia seco. Esvaído de vida.

Com o dinheiro do sujeito paguei a conta, recebi o troco e deixei o bar.

Estava bêbado.

Caminhava de volta para o apartamento e para a corda quando senti algo tilintar em meu bolso. Enfiei a mão e encontrei o dinheiro do troco do bar. Suspirei e olhei o relógio. Ainda havia tempo para ir em algum outro lugar.

 

Acertando a pontaria

21/02/2011

A noite começou como um erro. Bebi algumas cervejas e perambulei pela casa. Estava bêbado.

Beber em casa me causa pânico. Quando estou na rua nada me surpreende, mas não aqui. Não me sinto seguro vendo os meus muros tremendo como na porra de um navio.

Cheguei até o quintal. Caminhei como se tivesse vencido uma multidão e me arremessei na rede. Acima, duas moscas passeavam pelos cordões do varal. Apontei meu dedo indicador e mirei. Vocês não escapam, suas putas. Suas vidas estão em minhas mãos. A morte está em todo lugar, e agora ela se chama Sebastião Bravo.

Acertei a mira.

Veio o sereno.

Gotas de chuva direto em meus olhos. Mas que…

As moscas voaram para longe.

Não foi minha noite.

***

Eu não tinha paciência para nada, nem para sair na rua. Evitava ver todas aquelas caras de cu sorrindo pra mim. Então minha namorada vinha me visitar em minha casa quando queria me ver. Era uma garota boa e decente. Eu que era um fracasso.

Ela entrou e caminhou casa adentro. Eu a seguia contemplando os sinais de suas costas. Paramos na cozinha e eu a servi um copo d’água.

Era maravilhoso. Todo o seu corpo gritava AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR. Eu não podia desgrudar os olhos dela.

– Você deveria ter feito a barba – disse ela

– Ééé.

– Você deveria ter tomado um banho.

– Na próxima vez, querida, na próxima vez.

– Escrevendo? – perguntou

Seus olhos sorriam. Ela estava achando tudo aquilo muito divertido.

– Quando há vontade, querida. – respondi

– Você deveria se empenhar um pouco mais – disse ela gargalhando – que tipo de coisas tem escrito?

– Aquele tipo de coisa que nunca ganha prêmios.

Saltitou pela casa. Eu a seguia como uma criança procurando por um doce. Ela gostava de brincar de gato. A fazia se sentir mais sexy, segura.

Eu concordo.

– Sua TV não funciona. – disse ela acertando os botões da TV

– Bem, ainda me resta o ventilador.

– Com esse barulho eu mal ouço meus próprios pensamentos.

– É isso que gosto nele, querida.

Ela depositou o copo vazio sobre a TV velha.

Aí se inclinou e eu não consegui mais segurar. Olha vamos ali até o meu quarto, lá é legal. O ventilador não faz tanto barulho.

Caminhamos até o quarto e ela tirou suas calças. Sempre assim, tirava primeiro as calças. Gostava de exibir suas pernas para mim. Eu a levantei e coloquei de joelhos sobre a cama, ela ergueu os braços para tirar sua blusa.

– Não se mova – eu disse – permaneça assim.

Ela riu, mas fez o que pedi. Era maravilhoso. Seus olhos eram verdes e seus cabelos loiros despenteados pareciam os relâmpagos vindos direto da cabeça do próprio Deus. Eu a olharia por horas e não ficaria cansado. Vê? Estou ficando sentimental. Aquela garota realmente me pegou.

– Eu não sei se fico muito bem nessa pose. – disse ela

Eu sorri e caminhei até ela. Algumas mulheres estão sempre erradas sobre a sua aparência. Não importa no que estejam pensando, estão sempre enganadas.

– Você está perfeita.

Rolei sobre ela.

Fiquei meio deprimido. Logo tudo estaria acabado. O amor é uma camada fina de gelo que cobre a superfície de uma chapa de vidro. Derrete com o tempo. Nunca dura o quanto queremos que ele dure. Queima rápido demais ou simplesmente não vai embora quando não o desejamos. Não é algo que está sujeito a nossa vontade. É uma coisa perigosa, que possui suas próprias agonias, não há nada que possamos fazer para controlá-lo.

Dê-nos tempo o bastante eu estaria chamando-a de puta e ela arremessando garrafas de cerveja contra a minha cabeça.

De qualquer modo abaixei o zíper e deslizei para dentro. O fim da brincadeira. A vingança perversa. Era perfeito. Eu me sentia como um ladrão orgulhoso por seu furto. Vendo-a sob mim, os olhos apertados, as mãos torcendo as cobertas da cama.

Eu estava escrevendo um poema dentro dela. Um dos bons.

Meus olhos podiam rebater o sol. Eu poderia matar todas as moscas do planeta terra.

19/02/2011 – 16:59

19/02/2011

Escrevo em um volume de menor ultimamente. Ao menos a qualidade não é tão questionável. Estou sintonizado, então. Deslizando suavemente ladeira abaixo na velocidade que eu quiser.

Meu humor não anda dos melhores. Eu armo planos, mas sempre algo dá errado, fodam-se os planos então. Não vou deixar esses pequenos fracassos continuarem a foder o meu humor. É muito fácil ser mal humorado, qualquer um pode ser mal humorado.

Li uns poemas de um cara que me mandaram por email. Como eu, ele também está tentando ser um escritor, mas somos muito diferentes. Ele escreve com fúria, indignado por um monte de coisas. Talvez ele ache que assim que as coisas funcionem na escrita. Pra mim parece a porra de um chilique. Um monte de lixo disfarçado de ouro. E tem também os trocadilhos e as frases de efeito. Por que tentar ser inteligente o tempo todo? Prefiro ser rápido como um murro no cérebro. Eu sou?

Você escreve uma dúzia de palavras e espera deixar as calcinhas molhadas e espera que os caras sejam camaradas e o convidem para tomar uma cerveja. Não escreva assim. Não há nenhum sentido nisso.

Tenho me perguntado sobre como Dostoievsky encararia os filmes hollywoodianos, ou como Charles Bukowski lidaria com o advento da internet. Eu tento ignorar todo tipo de merda. Os deuses têm que colocar um escudo cada vez maior sobre nossas cabeças. Não podemos deixar que nenhum filho da puta nos quebre, podemos?


Toda a guerra por nada

19/02/2011

Eu tinha 12 anos e nada estava a meu favor. Os outros garotos pareciam bem melhores do que eu. Mal sabiam limpar o próprio rabo, mas podiam fazer 50 gols em uma partida de futebol. Eu sempre fui péssimo com jogos, mas sabia como limpar minha bunda de forma decente. Como se importasse.

Eu não fazia questão de assistir aulas de trigonometria, era deprimente. Apenas olhava para ela. Ela não era uma das garotas mais bonitas, mas parecia gostar de mim. Eu gostava dela por isso. Minha aparência não era das melhores. Eu usava o antigo uniforme de meu irmão, longo demais nos braços, curto demais no dorso. Ela parecia não se importar com isso. No entanto, percebi que conversava com uma amiga sobre um cara de outra turma.

Emputeci.

O outro cara não parecia ser tão melhor do que eu. E eu não entendia bem o que as garotas procuravam. Não importa o que eu achava que as agradariam, minhas suposições estavam sempre erradas.

Ao fim da aula o sol estava forte demais para voltar para casa e eu resolvi dar um tempo por ali. Elton, um garoto de minha turma, sentou-se ao meu lado. Os outros garotos o chamavam de leitão porque ele era gordo e rosado. Eu não o chamava assim, não me importava em fazer as pessoas se sentirem piores com elas mesmas, mas de qualquer modo não queria ser visto com ele. Eu já era um perdedor por minha própria conta, ser visto com mais um só me traria problemas.

– O que quer aqui? – perguntei

– Preciso falar com a coordenadora, vem comigo? – seus olhos apontados para o chão, nem mesmo olhando pra minha cara.

– Espere aí. Você tá pensando que eu sou viado, porra?

Ele não respondeu. Levantou-se e foi se arrastando na direção do outro pátio.

– Espera aí – disse eu – vou contigo.

Não conversamos mais nada durante o caminho. Eu não queria fazer o garoto se sentir mal, então o acompanhei. Pelo menos isso me distrairia por alguns minutos.

De longe, sozinhas, minha garota e sua amiga conversavam e sorriram ao ver a gente. Elton olhou-me e disse, elas querem falar contigo, agora é com você.

Eu gelei.

Minhas pernas me conduziam até as garotas e eu andava meio encurvado para a camisa não subir mostrando minha barriga. As garotas cochichavam e riam esperando por mim. Minha garota usava brilho na boca. Cheirava bem.

Eu não estava assustado por aquilo, só não sabia direito o que fazer então fiquei parado esperando que elas fizessem algo. O tempo não passava e elas pareciam estar se divertindo com aquilo. A amiga saiu dizendo que ia deixar-nos a sós e me empurrou na direção de minha garota. Nossas bocas se encontraram.

Ela abriu sua boca e enfiou a língua dentro da minha. Era macio, molhado. Eu não sabia direito o que estava fazendo, mas tinha certeza de que não estava indo tão mal assim. E se houvesse alguma coisa a mais para fazer, diabos, alguém me avisasse, pois eu faria.

Nós continuamos nos beijando por um tempo e eu tinha medo de não saber o que dizer depois que nos largássemos, mas sua amiga nos interrompeu. As duas saíram correndo e rindo e eu me sentia como se houvesse descoberto um tesouro que seria só meu e de mais ninguém.

Nós nunca nos beijamos de novo e algum tempo depois eu soube que naquele mesmo dia ela ficou com mais três garotos. Depois de anos, passei por ela na rua. Fingiu que não me viu.

18/02/2011 – 21:39

19/02/2011

Eu larguei meu emprego ontem. Procurava uma maneira certa de como falar sobre isso. Eu precisei digerir. Não falamos do sabor de uma refeição enquanto ainda mastigamos.

Não sei bem porque tomei essa atitude. Apenas me pareceu a coisa certa a fazer. Quero dizer, eu sempre tive todos os motivos do mundo para ficar insatisfeito, por que justamente hoje? Eu não sei. Desci as escadas até a sala de minha chefe, ela falava com uma amiga ao telefone, então esperei.

Ela não aumentou as coisas além da realidade e nossa conversa não durou mais de 5 minutos. Gostaria que sempre fosse assim, mas infelizmente não é possível. As pessoas sempre estão procurando por um bom drama, como se isso pudesse fazê-las esquecer da falta de significância de suas vidas. Bem, eu não.

Antes de partir, segui pelos corredores até o refeitório e comi pela última vez aquela porcaria de comida. Quantos homens se alimentam diariamente daquela mistura sem sabor? É por isso que vejo tantos sujeitos abatidos por aí. Arrastam-se de volta ao trabalho como lesmas deixando seus dejetos por todos os lugares.

Incrivelmente, um toque de tristeza envolvia tudo. Pensava se algum dia eu sentiria saudades de alguma parte daquilo. Talvez quando eu for velho e já não tiver mais nenhum segundo de vida para gastar. Hoje não.

Eu peguei um ônibus de volta para casa, mas no primeiro sinal vermelho ficamos cerca de 10 minutos parados. Eu sentia que tinha tomado as rédeas de minha própria vida então decidi descer e voltar para casa a pé. Tomei um caminho que costumava usar quando era criança, passando pelo centro. Aprende-se muito sobre a cidade perambulando pelo centro. Você percebe que por um preço, tudo está à venda.

Segui o caminho e lá estava ele. Um muro pintado de tinta branca corroída por infiltração.  Ele costumava ser do mesmo jeito desde que eu era garoto. Eu passava em frente a esse muro e as falhas na pintura me faziam tentar identificar formas desenhadas. Cachorros, gatos, rostos deformados, qualquer coisa que eu pudesse imaginar na época. O tempo passa e fode com a nossa imaginação, não conseguimos mais ter boa impressão sobre nada. O mundo é muito cru, cagando sobre a gente o tempo todo. Hoje é apenas um muro branco arrasado pelo tempo.

Muitos escritores criam poucas coisas boas em sua vida. O livro é aclamado pela crítica e eles acreditam nos elogios, estão acabados. Alguns apostam em títulos que chamem a atenção. E conseguem. Porém seus livros são uma sucessão de porcarias sem tamanho. Eu geralmente preciso de algo que me ponha no caminho. Meu tanque está sempre cheio, mas acabo por tomar alguns caminhos errados. Preciso de algo que me sintonize. Acho que quando eu for velho esse problema terá acabado e com ele meu combustível também. De qualquer modo, nunca serei completo. A vida lhe dá e lhe tira muita coisa. Boa noite.

17/02/2011 – 16:22

17/02/2011

Eu estava em um ônibus indo ao trabalho quando essa senhora escorregou ao descer e deu de cara com o concreto da calçada. Alguns dos passageiros se preocuparam em levantar seus rabos dos assentos para ver o que estava havendo. Outros xingaram o motorista como se ele fosse responsável pela idade e a falta de forças nas pernas da mulher. Enquanto isso, ela tentava se reerguer sem a ajuda das pessoas tão preocupas em gritar suas impressões sobre o acontecido. Ela que se foda.

Eu apenas aproveitei nosso pequeno tumulto. O mundo nos diz muita coisa diariamente, o escritor só precisa ter bons olhos e bons ouvidos para senti-lo como ele é de fato. Eu não preciso me trancar em um quarto escuro ou viajar para um retiro espiritual para encontrar sobre o que escrever. Tudo está por aí nos transportes coletivos, postos de gasolina, bancos. Esperando para ser observado. Se o escritor perde contato com esse tipo de coisas, está acabado. Se o escritor se deixa influenciar pelo público ou pelas correntes literárias em evidência, está duas vezes acabado.

Eu fui a uma livraria ontem e não havia nada a comprar. Quando se já leu uma parte considerável de boa literatura não há muito entusiasmo de dar tiros no escuro. Também não existem muitas pessoas confiáveis para indicar algo bom o suficiente. Então aqui estou eu, escrevendo minhas próprias criações. Tentando erguer meu pequeno império literário.

Às vezes eu penso em uma boa história enquanto espero nas filas do banco ou durante o almoço. Mas quando vou escrevê-la, ela se foi. Hoje percebi que talvez elas venham a mim na hora que eu mais precise delas, quando preciso distrair a minha mente para não pirar de vez. Há uma ordem para as coisas e eu estou grato por isso.

 

16/02/2011 – 22:06

17/02/2011

Eu queria ser escritor, mas me tornei um operário. Vendendo minha força de trabalho a trocados, vendo minha juventude pendurada em um gancho ser feita em pedaços a cada problema novo que preciso lidar.

Minha vida sempre foi uma espera constante para fazer as coisas que realmente gosto de fazer. Ir ao banco e esperar. Apanhar um ônibus e esperar. Agora sou sabotado por minha própria ansiedade, quando minha cabeça fervilha em idéias mas as palavras não parecem querer sentar ao meu lado para uma prosa.

As pessoas falam sobre artistas loucos. Sobre como a arte pode fundir nossas cucas com sua subversividade. Bem, eles estão apenas superestimando a porra toda. Eu escrevo porque preciso escrever, todas as palavras que não escrevo me deixam maluco. Não consigo administrar a quantidade de história presas no sótão da minha cabeça. Não poderia passar por um mundo como esses com a boca fechada. Isso, isso sim me deixaria pirado.

Quando escrevo é quando crio incêndios que não tenho certeza se poderei controlar, é quando me sinto vivo e percebo que não preciso da porcaria que alguns chamam de imortalidade. Quando não preciso envolver meu cérebro em uma embalagem plástica e engolir tudo o que vejo pelo frente. As palavras são carros a 160 quilômetros por hora passando sobre minhas próprias entranhas.

Eu tento esperar novamente. Adicionar mais uma fila à minha vida, mais um processo a separar minha chegada a mim mesmo. Digo, vá à casa de sua mulher, tente ver algum filme. Volte depois quando as palavras parecerem mais certas. Então eu vou lá fora e observo todas as pessoas e isso me afasta mais ainda de meu processo criativo. Fico meditando sobre como podemos ser tão diferentes a ponto de eu não conseguir falar sobre isso.

Eu estava voltando para casa hoje e vi essa garota jovem, com um belo par de seios com as mãos entrelaçadas as de um coroa de cabelos longos e brancos, óculos de armação grossa. Pinta de filósofo. Talvez ela esperasse que ele fosse capaz de salvar sua vida de todo o vazio aparente. Ou talvez ele tivesse bastante grana para lhe comprar dezenas de pares de sapatos por dia, ou mesmo possuir um caralho de trinta e cinco centímetros. De qualquer modo, percebi que não sou capaz de identificar a razão para as pessoas amarem umas as outras. Estamos todos morrendo, o homem é o câncer da terra e isso deveria ser o suficiente para nos agarrarmos uns aos outros.

Mas não.