Toda a guerra por nada

Eu tinha 12 anos e nada estava a meu favor. Os outros garotos pareciam bem melhores do que eu. Mal sabiam limpar o próprio rabo, mas podiam fazer 50 gols em uma partida de futebol. Eu sempre fui péssimo com jogos, mas sabia como limpar minha bunda de forma decente. Como se importasse.

Eu não fazia questão de assistir aulas de trigonometria, era deprimente. Apenas olhava para ela. Ela não era uma das garotas mais bonitas, mas parecia gostar de mim. Eu gostava dela por isso. Minha aparência não era das melhores. Eu usava o antigo uniforme de meu irmão, longo demais nos braços, curto demais no dorso. Ela parecia não se importar com isso. No entanto, percebi que conversava com uma amiga sobre um cara de outra turma.

Emputeci.

O outro cara não parecia ser tão melhor do que eu. E eu não entendia bem o que as garotas procuravam. Não importa o que eu achava que as agradariam, minhas suposições estavam sempre erradas.

Ao fim da aula o sol estava forte demais para voltar para casa e eu resolvi dar um tempo por ali. Elton, um garoto de minha turma, sentou-se ao meu lado. Os outros garotos o chamavam de leitão porque ele era gordo e rosado. Eu não o chamava assim, não me importava em fazer as pessoas se sentirem piores com elas mesmas, mas de qualquer modo não queria ser visto com ele. Eu já era um perdedor por minha própria conta, ser visto com mais um só me traria problemas.

– O que quer aqui? – perguntei

– Preciso falar com a coordenadora, vem comigo? – seus olhos apontados para o chão, nem mesmo olhando pra minha cara.

– Espere aí. Você tá pensando que eu sou viado, porra?

Ele não respondeu. Levantou-se e foi se arrastando na direção do outro pátio.

– Espera aí – disse eu – vou contigo.

Não conversamos mais nada durante o caminho. Eu não queria fazer o garoto se sentir mal, então o acompanhei. Pelo menos isso me distrairia por alguns minutos.

De longe, sozinhas, minha garota e sua amiga conversavam e sorriram ao ver a gente. Elton olhou-me e disse, elas querem falar contigo, agora é com você.

Eu gelei.

Minhas pernas me conduziam até as garotas e eu andava meio encurvado para a camisa não subir mostrando minha barriga. As garotas cochichavam e riam esperando por mim. Minha garota usava brilho na boca. Cheirava bem.

Eu não estava assustado por aquilo, só não sabia direito o que fazer então fiquei parado esperando que elas fizessem algo. O tempo não passava e elas pareciam estar se divertindo com aquilo. A amiga saiu dizendo que ia deixar-nos a sós e me empurrou na direção de minha garota. Nossas bocas se encontraram.

Ela abriu sua boca e enfiou a língua dentro da minha. Era macio, molhado. Eu não sabia direito o que estava fazendo, mas tinha certeza de que não estava indo tão mal assim. E se houvesse alguma coisa a mais para fazer, diabos, alguém me avisasse, pois eu faria.

Nós continuamos nos beijando por um tempo e eu tinha medo de não saber o que dizer depois que nos largássemos, mas sua amiga nos interrompeu. As duas saíram correndo e rindo e eu me sentia como se houvesse descoberto um tesouro que seria só meu e de mais ninguém.

Nós nunca nos beijamos de novo e algum tempo depois eu soube que naquele mesmo dia ela ficou com mais três garotos. Depois de anos, passei por ela na rua. Fingiu que não me viu.

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