Acertando a pontaria

A noite começou como um erro. Bebi algumas cervejas e perambulei pela casa. Estava bêbado.

Beber em casa me causa pânico. Quando estou na rua nada me surpreende, mas não aqui. Não me sinto seguro vendo os meus muros tremendo como na porra de um navio.

Cheguei até o quintal. Caminhei como se tivesse vencido uma multidão e me arremessei na rede. Acima, duas moscas passeavam pelos cordões do varal. Apontei meu dedo indicador e mirei. Vocês não escapam, suas putas. Suas vidas estão em minhas mãos. A morte está em todo lugar, e agora ela se chama Sebastião Bravo.

Acertei a mira.

Veio o sereno.

Gotas de chuva direto em meus olhos. Mas que…

As moscas voaram para longe.

Não foi minha noite.

***

Eu não tinha paciência para nada, nem para sair na rua. Evitava ver todas aquelas caras de cu sorrindo pra mim. Então minha namorada vinha me visitar em minha casa quando queria me ver. Era uma garota boa e decente. Eu que era um fracasso.

Ela entrou e caminhou casa adentro. Eu a seguia contemplando os sinais de suas costas. Paramos na cozinha e eu a servi um copo d’água.

Era maravilhoso. Todo o seu corpo gritava AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR. Eu não podia desgrudar os olhos dela.

– Você deveria ter feito a barba – disse ela

– Ééé.

– Você deveria ter tomado um banho.

– Na próxima vez, querida, na próxima vez.

– Escrevendo? – perguntou

Seus olhos sorriam. Ela estava achando tudo aquilo muito divertido.

– Quando há vontade, querida. – respondi

– Você deveria se empenhar um pouco mais – disse ela gargalhando – que tipo de coisas tem escrito?

– Aquele tipo de coisa que nunca ganha prêmios.

Saltitou pela casa. Eu a seguia como uma criança procurando por um doce. Ela gostava de brincar de gato. A fazia se sentir mais sexy, segura.

Eu concordo.

– Sua TV não funciona. – disse ela acertando os botões da TV

– Bem, ainda me resta o ventilador.

– Com esse barulho eu mal ouço meus próprios pensamentos.

– É isso que gosto nele, querida.

Ela depositou o copo vazio sobre a TV velha.

Aí se inclinou e eu não consegui mais segurar. Olha vamos ali até o meu quarto, lá é legal. O ventilador não faz tanto barulho.

Caminhamos até o quarto e ela tirou suas calças. Sempre assim, tirava primeiro as calças. Gostava de exibir suas pernas para mim. Eu a levantei e coloquei de joelhos sobre a cama, ela ergueu os braços para tirar sua blusa.

– Não se mova – eu disse – permaneça assim.

Ela riu, mas fez o que pedi. Era maravilhoso. Seus olhos eram verdes e seus cabelos loiros despenteados pareciam os relâmpagos vindos direto da cabeça do próprio Deus. Eu a olharia por horas e não ficaria cansado. Vê? Estou ficando sentimental. Aquela garota realmente me pegou.

– Eu não sei se fico muito bem nessa pose. – disse ela

Eu sorri e caminhei até ela. Algumas mulheres estão sempre erradas sobre a sua aparência. Não importa no que estejam pensando, estão sempre enganadas.

– Você está perfeita.

Rolei sobre ela.

Fiquei meio deprimido. Logo tudo estaria acabado. O amor é uma camada fina de gelo que cobre a superfície de uma chapa de vidro. Derrete com o tempo. Nunca dura o quanto queremos que ele dure. Queima rápido demais ou simplesmente não vai embora quando não o desejamos. Não é algo que está sujeito a nossa vontade. É uma coisa perigosa, que possui suas próprias agonias, não há nada que possamos fazer para controlá-lo.

Dê-nos tempo o bastante eu estaria chamando-a de puta e ela arremessando garrafas de cerveja contra a minha cabeça.

De qualquer modo abaixei o zíper e deslizei para dentro. O fim da brincadeira. A vingança perversa. Era perfeito. Eu me sentia como um ladrão orgulhoso por seu furto. Vendo-a sob mim, os olhos apertados, as mãos torcendo as cobertas da cama.

Eu estava escrevendo um poema dentro dela. Um dos bons.

Meus olhos podiam rebater o sol. Eu poderia matar todas as moscas do planeta terra.

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