O esticar da corda

Eu estava prestes a terminar tudo, procurando nos bolsos da calça algo para me ajudar a esticar a corda quando achei alguns trocados.

A morte está à espreita em todo o lugar. Sempre esperando descuidos. Esperando um dobrar da esquina. Esperando-nos atravessar a rua fora da faixa. Esperando por uma briga de bar. A paciente espera para nos ver agonizando. Tudo que podemos fazer para enganá-la é escolher a nossa própria hora.

Soltei a corda e depositei os trocados na palma da mão. Algumas moedas eram de 1994. Por quais bolsos elas passaram até chegar ao meu? É uma coisa doida pra pensar.

Decidi que seria uma grande bobagem desperdiçar esse dinheiro, já que muito provavelmente eu deveria ter feito algo profundamente desagradável para ganhá-lo. Alguma dessas coisas estúpidas que fazemos por uns trocados. Deixar esse dinheiro para trás me levaria direto ao inferno.

Deixei o apartamento e a corda para depois.

Desci em direção ao bar do Tibério.

Não estava lotado. As comidas ficavam expostas no balcão. Sentei-me e pedi um café. Tibério me olhou na cara e caminhou penosamente até a cozinha do bar. Sobre nós, um quadro com o rosto de Padre Cícero velava o estabelecimento.

Ele trouxe o café. Estava forte demais. Bebi alguns goles e pensei em pedir um pouco mais de açúcar, mas desisti. É melhor não abusar da paciência desses caras. Ele podia mandar algum dos entregadores cuspir ou ejacular no meu café e esse era o tipo de dúvida que eu não queria levar de volta até o apartamento.

Eu estava aproveitando meu café quando esse sujeito sentou-se ao meu lado e pediu uma cerveja. O rosto era muito redondo. Tinha olheiras profundas. Era duro olhar para ele.

– Você está parecendo merda pisada, amigo. – disse eu

Não havia nada a me preocupar. Tudo estaria acabado e eu estava em paz. Poderiam me colocar perante um exército e ainda assim eu cagaria na cara dos soldados.

– Você também, na verdade. – ele respondeu

O meu reflexo nas paredes finas da xícara de vidro não o deixava mentir. Ele era um homem corajoso ao dizer isso a um completo estranho nessas bandas. Poderia ser um cara como eu.

– Você bebe? – perguntou

– Claro.

Ele pegou um dos copos do balcão e o encheu de cerveja pra mim. Ao contrário do café, a cerveja descia suave. Uma massagem na garganta.

– Obrigado, compadre.

– O que você faz pra viver? – perguntou ele

– Sou escritor.

– E se não fosse escritor, o que faria?

– Boxe amador.

– E qual é a relação nisso? – perguntou após servir-me mais um copo.

– Todas do mundo. Alguns idiotas é que aumentam as diferenças.

– Isso é verdade. Temos uns esportistas bem burros por aí e…

– Falo dos escritores.

Bebemos mais algumas garrafas e o sujeito foi bem amigável. Ficava calado olhando para o tempo. Conversávamos um pouco, não nos deixando levar pelo desespero que algumas pessoas têm em manter contato o tempo inteiro. Parece que não calam a boca nunca!

– Escuta, eu não perguntei o que você faz.

– Eu sou corno. – precipitou-se ele

– Eu não sabia que isso estava dando dinheiro. Onde pego meu cheque?

– Olha cara, eu estou tentando abrir meu coração aqui, tudo bem? Não quero que você pense que eu sou um bebê chorão ou que eu sou uma espécie de veado. Só não faça pouco de meus sentimentos. Eu estou sofrendo, porra.

– Tudo bem, tudo bem, compadre. Vamos me fale dela.

– Ela estava fodendo com um colega de trabalho meu. Eu chamei uns colegas da firma para tomarem uma cerveja lá em casa. Pensei em ser camarada e é assim que me mostram gratidão. COMENDO MINHA MULHER EM MINHA PRÓPRIA CAMA. Aqueles desgraçados, mal virei de costas e já enfiaram um dedo sujo no meu rabo!

– Está tudo bem compadre, coloque tudo para fora, vamos.

Ele abriu sua carteira e retirou um pedaço de papel. Uma fotografia de sua esposa. Alcançou-me a fotografia, ela era bonita e parecia saudável, agradável aos olhos.

– Sua puta! – eu disse – Como diabos você pôde ter coragem de fazer isso com meu amigo aqui? Sua puta!  Sua puta! SUA PUTA! PUTA!

– Ei amigo, está tudo bem, vamos com calma. – disse puxando a fotografia de minhas mãos.

Ele estava acabado. Não parava de pedir mais e mais cerveja, todas em sua conta. É perigoso beber com um homem assim nessas bandas da cidade. As pessoas farejam a grana e tentam nos extorquir o tempo inteiro. Os galegos e suas quinquilharias, as putas se insinuando. Até mesmo sua esposa, oferecendo AMOR em troca de uma vida confortável montada na sua grana e no pau do seu amigo.

Vivemos em uma sociedade cheia de ladrões. Políticos, médicos, vendedores, advogados e bebuns e mendigos, todos tentando arrancar algum pedaço de nossos pertences.

– Eu a matei. – ele disse – matei ela e aquele filho-da-puta que dizia ser meu amigo. Ainda há pouco, antes de vir para o bar, peguei os dois transado. Os diabos estavam cheios de tesão! Nunca vi ninguém foder daquele jeito. Fiquei enojado. Em nome de Deus, eu tinha que parar aquilo. Então fui até meu armário e busquei a .45 e atirei na cabeça do filho da puta. Diabos, o pau dele ainda estava dentro dela! Ela tentou se explicar, mas eu atirei em sua barriga. Saí e a deixei agonizando sobre o nosso tapete. A porra do tapete. Ela sempre reclamava das minhas sujeiras no tapete. Agora está lá derramando todo aquele maldito sangue sobre ele.

– Olhe, companheiro. Eu não estou aqui para julgar ninguém. – respondi.

Não havia nada que eu pudesse dizer. A morte realmente estava em todo o lugar.

– Eu não quero ir para a cadeia. E se alguém tentar comer o meu rabo? Eu não sobreviverei na cadeia. O que devo fazer? Oh, Cristo.

O sujeito chorava. Seus olhos estavam vermelhos como tochas. mas já não era tão duro olhar para ele. Ele estava destruído, arregaçado como uma jaca atirada do 10º andar.

– Escute, compadre, por que você não volta para casa e liga para os tiras e avisa que os encontrou daquele jeito? Eles irão acreditar em você. Vão perceber que ela era apenas uma puta se aproveitando de você e que o amante atirou nela e depois resolveu esburacar a própria cabeça. Você parece já estar pagando por seu crime, não precisa de uma cadeia onde provavelmente irão comer o seu rabo.

Ele olhou para mim e repousou uma nota das grandes sobre o balcão e deixou o bar sem dar uma palavra. Parecia seco. Esvaído de vida.

Com o dinheiro do sujeito paguei a conta, recebi o troco e deixei o bar.

Estava bêbado.

Caminhava de volta para o apartamento e para a corda quando senti algo tilintar em meu bolso. Enfiei a mão e encontrei o dinheiro do troco do bar. Suspirei e olhei o relógio. Ainda havia tempo para ir em algum outro lugar.

 

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