23/02/2011 – 18:16

Escrever está apertado como uma luta de boxe. As palavras saem e não há nenhuma folga entre elas. Sinto-me numa corrida com o mundo desabando às minhas costas. É uma sensação quase boa.

Continuemos.

Tudo o que um cara precisa é de uma boa chance. Alguém está sempre controlando quem merece ou não merece uma chance. Vincent Van Gogh nunca teve chance nenhuma. No seu tempo a concorrência era muito maior e o cara encarregado de distribuir as chances decidiu economizá-lo. Guarda-lo para mais tarde.

Era tarde demais. Vincent estava morto. As pessoas vêm tarde demais os holofotes, microfones, repórteres, o reconhecimento. Todos vêm tarde demais. São como sanguessugas procurando algo que os mantenha vivo, mas se arrastam do seu próprio modo, o modo que mais parece conveniente. Mas eu sou um cara muito jovem. Estarei pronto para chutá-los no rabo quando (se) eles vierem.

Eu estava comendo bolachas esperando o ônibus hoje mais cedo quando esse garotinho chegou com sua mãe. Ele deveria ter algo em torno de 5 anos (eu nunca soube identificar a idade de crianças por sua aparência). De qualquer modo ele ficou me observando enquanto eu comia minhas bolachas, parecia interessado. Eu tive vontade de lhe oferecer algumas, mas sua mãe talvez estranhasse então as guardei em minha bolsa.

Ele usava um uniforme de uma escola pública, seu cabelo se parecia com o meu, quando eu era criança.

 A mãe do menino era uma criatura repugnante. Era grande e velha e gorda e não parava de resmungar sobre os ônibus estarem demorando, sobre o peso da mochila do garoto e sobre ele ficar querendo ir para a rua o tempo inteiro. “CRISTO! O QUE VOCÊ CARREGA NESSA BOLSA, MALDITAS PEDRAS? VOCÊ NÃO SENTE PENA DA SUA MÃE, SEU PEQUENO DESGRAÇADO? E ONDE ESTÃO ESSES MALDITOS ÔNIBUS? ELES SÓ PODEM QUERER ME DEIXAR MALUCA!”

Eu me afastei deles, não queria ficar perto dela. Senti pena do garoto. O que diabos podemos esperar de uma criança crescendo com uma mulher daquele tipo como exemplo?

Ela começou a espirrar e tossir e assoava o nariz com as mãos e as esfregava na mochila. Entupindo a criança com germes. A cada vez que ela espirrava e esfregava as mãos, uma mancha úmida aumentava nos fundos da mochila do garoto. Era detestável.

Dois rapazes também esperavam o ônibus. Conversavam. Eram estudantes. Eles pareciam não estar percebendo o que estava acontecendo ali. Eu estava.

Eu estava começando a ficar enjoado quando avistei do outro lado da rua uma garota que morava em nossa vizinhança. Eu não a via há muito tempo. Ela estava ótima, apesar de ter engordado um pouco. Eu me pus a olhá-la e tratei de esquecer do menino e de sua mãe repugnante. A garota me viu. Não desviei meus olhos dela. Eu queria que ela soubesse que eu estava a olhando.

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