Como um exército

Durante todos os primeiros anos de colégio eu nunca tive uma chance de jogar futebol. Eu não deveria me importar com isso, mas a minha vida inteira se resumia a ir à escola. Sair fracassado na única tarefa que me era cobrada dava uma sensação horrível. E o futebol realmente parecia ser uma coisa bem importante.

Eu era um homem marcado pelo erro. Arruinara todas as chances de provar o meu valor nos esportes e nunca mais restaria pra mim uma vaga em qualquer time. Eu poderia jogar voleibol, se eu quisesse, mas era humilhante. As meninas jogavam voleibol.

Eu era o único cara da classe a não praticar esporte nenhum, talvez o único cara do MUNDO. Eu tinha visto na TV, caras sem braço praticavam esportes nas olimpíadas.

Ficava sentado num canto esperando o intervalo acabar.

Os garotos da minha turma nunca conseguiam arrumar uma bola decente, as crianças maiores sempre tinham prioridade, então eles se viravam com o que podiam. Garrafas de plástico, bolas de meia, tampas de garrafa, qualquer coisa que pudesse ser chutada e perseguida. Certa vez chutaram uma lata de refrigerante amassada e ela acertou direto na cara de um dos meninos da outra turma. Alguns dos garotos disseram que ele perdeu o olho. Acreditei neles.

Um dos meninos endinheirados da classe terminou de chupar o seu refrigerante, atirou a garrafa no chão e disse:

– Certo, vamos jogar futebol.

Os caras que mais sabiam jogar tinham o direito de escolher os seus times. Cada um escolhia um homem, até que todos tivessem acabado. Nunca sobrava vaga alguma para mim.

Escutei de longe:

– Ei, falta um jogador no nosso time. Vamos ter que chamar o Bravo.

– O quê?

– Ele é um otário!

– Vamos jogar com um a menos!

– Olha gente, isso não parece certo. Eu não vou jogar contra um time com um homem a menos.

– Ei bravo – um dos garotos gritou -, quer bater uma bolinha?

– Ok galera, vamos cagá-los à pau – respondi

Era a minha chance. Eu só precisava não fazer algo estúpido, mas isso é bem difícil quando não temos a mínima idéia do que estamos fazendo.

Começamos a jogar. As meninas nos assistiam. Algumas até usavam maquiagem. Éramos famosos!

A garrafa amassada rolava de um lado pro outro. Eu me preocupava em correr atrás dela, sabendo que quando a alcançasse, não saberia o que fazer. Alguns dos meninos não estavam nem aí para jogar. Só queriam exercitar sua violência. Muitos de nós levávamos vidas muito estúpidas e com pouquíssimo amor de quem quer que seja. Garotos assim só queriam se sentir no controle. Era duro demais.

Aquilo não era futebol de verdade, o que importava mesmo era se destacar no meio da multidão. Eu corria e gritava, tentava me misturar, tentava não parecer tão sem jeito. Algumas vezes a garrafa batia na minha canela e espirrava para longe, eu fingia que era de propósito.

Numa dessas a garrafa veio parar nos meus pés. Os garotos corriam na minha direção. TODOS eles. Eu não sabia o que fazer, estava nervoso pra burro. Então pensei: foda-se essa merda, vou encher o pé.

Foi terrível.

A garrafa bateu na parede e ricocheteou para longe, eu a acompanhava com os meus olhos. O miolo da minha canela doía. A garrafa passou rasgando por todos os meninos e atingiu o lanche de um cara que nem estava jogando.

Ele olhou para sua comida no chão e para mim e então disse:

– Seu desgraçado, eu vou matar você!

Eu queria tê-lo acertado na cara.

– Você me deve 50 centavos!

– Escuta, cara eu não tenho dinheiro.

– Ou você me compra outro lanche, ou teremos uma briga!

Os outros garotos pararam de jogar e nos rodearam, alguns ficavam atiçando o outro menino. Égua, vai deixar? Eu não deixaria se fosse comigo. Olhe só pra ele, é um maricas! Acabe com ele.

Uma briga era muito mais interessante que futebol. Para mim que nunca soube jogar bola, não saber brigar era mais humilhante ainda.

O menino veio ciscando na minha direção e me acertou a orelha.

Eu gelei.

Não foi a dor, foi a surpresa. Ele ficou parado na minha frente e um dos garotos gritou.

– VAMOS BRAVO, MEXA ESSE SEU RABO!

Foi como um tiro de largada. Parti pra cima dele de braços abertos. Acho que o acertei no pescoço. Ele era bem maior do que eu, mas caiu levando as mãos à garganta.

Eu esperei ele levantar. Não sabia direito o que eu estava sentindo, mas era gostoso. Queria que ele levantasse para eu enchê-lo de porrada.

Mas ele não levantou. Com as mãos agarradas ao próprio pescoço, ele chorava e puxava os meninos pelas calças.

– Acho que você entupiu a garganta dele pra dentro!

– Cristo! Acho que ele vai morrer!

– Corram, alguém vai chamar a coordenadora.

A situação se agravava a cada minuto. A coordenadora significava problemas.

Depois de algum tempo ela chegou, olhou todos os outros garotos e perguntou quem era o responsável por aquela bagunça. Todos os braços apontavam pra mim. Ela me puxou pelo braço e me arrastou até sua sala. O garoto continuava sem fôlego, jogado sobre um dos bancos. Achar um culpado parecia mais importante do que ajudá-lo.

Ela sentou-se atrás de sua mesa e começou a torcer clipes de papel.

– Você realmente machucou aquele garoto não é? Por quê?

– Eu não sei.

– Os pais dele vão querer saber o porquê, meu filho. Você acha que essa escola é alguma espécie de academia de boxe?

– Ele disse que iria me matar! Eu precisei reagir.

Ela parou e escolheu bem suas próximas palavras. Queria me fazer sentir mal pelo o que eu tinha feito. Esse parecia ser o seu trabalho. 12 diplomas estavam enquadrados em sua parede e seu trabalho era ferir crianças. Que merda de emprego, pensei. Seus cabelos tinham uma cor estranha. Não eram cores naturais. Por trás dos óculos, ela me encarava como se estivesse a contemplar um grande monte de bosta.

Nada naquela sala parecia certo. Nada estava à meu favor.

– Eu vou escrever um bilhete em sua agenda. Quero vê-lo assinado por seu responsável amanhã.

– Tudo bem – eu disse

Carimbou minha agenda. Notei que ela caprichou na ortografia. – Não queríamos desentendimentos, certo? – Ela alcançou-me a agenda fechada e eu a coloquei dentro de minha mochila. Eu não queria nem olhar. Queria fingir por algum tempo que aquilo não estava acontecendo.

Saí da escola e desci até o pátio, os outros garotos estavam brincando. Eles me viram e correram até mim.

– Ei, Bravo, você pegou aquele desgraçado, não?

– É! Os caras da turma agora o chamam de goela!

Todos riam, estavam contentes. O acontecido realmente parecia ter sido uma coisa importante. Um dia pra ser lembrado. Caminhei pelo pátio como um exército de um só homem. Eu não mais precisava do futebol.

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Uma resposta to “Como um exército”

  1. Larissa Says:

    O diretor do colegio da Carrie tambem entortava clipes quando dava sermao.

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