Archive for the ‘Contos’ Category

Política na tv e a vida sobre a cama

07/04/2011

Eu estava vivendo do seguro desemprego e morava com Julia em um pequeno quarto alugado. Tempos depois, Julia descobriu que a senhoria tinha a chave de todos os quartos e aproveitava a saída dos hospedes para verificar seus pertences. Ela nunca teve esse tipo de oportunidade conosco. Nós não tínhamos nada além de roupas sujas e eu estava em casa o tempo inteiro.

Julia trabalhava na cozinha de um restaurante da região. Ela dava um jeito de esconder cenouras e cebolas e alho e outros alimentos na bolsa. Sempre inventava como fazer comida com o pouco que tínhamos. Ela sabia viver direito. E agora estava grudada em mim.

Nós transávamos o dia inteiro e de todo o jeito que desse na telha. Não tínhamos muito que fazer ou no que pensar e os dias se arrastavam lentamente. Não havia mais nada.

Julia era uma mulata muito atraente, eu gostava de seus cabelos e de suas pernas e do cheiro de suas axilas e de seu sexo. Seus músculos eram fibrosos e rijos, sua pele não era coberta por nenhum tipo de mancha e ela tinha um jeito de sorrir que, por Deus, excitaria o próprio santo padre. Tudo nela era interessante, ela sabia como ser mulher. Passeava pelo quarto com as pernas a mostra e eu sonhava olhando aquele par de pernas. Quando nossos olhares se cruzavan, eram como dois cães brigando a mordidas, então eu atravessa o quarto como um trovão e a agarrava.

Depois eu me deitava sob as cobertas e Julia assistia aos programas da TV.

Nosso aparelho de televisão só funcionava de vez em quando, e tinha uma imagem chuviscada. Problemas com a antena, eu acho.

Julia gostava de ver TV, gostava de ver qualquer coisa. Assistíamos ao canal da política. Os sujeitos de paletó discutiam algo completamente indiferente para nós. Estavam irados. Eu gostava quando ficavam fora de si.

– Será que esses caras da TV sabem trepar? – perguntou-me Julia

– Ah, não sei. Na verdade…

– Anda, fala. O que você acha?

– Diabos! Todo mundo sabe trepar, querida.

– Não, – disse ela – não falo sobre ter relações sexuais. Falo sobre trepar.

– Trepar?

– É. Trepar assim que nem a gente a trepa.

– Que nem a gente eu não sei. Todo mundo trepa diferente.

– Acho que eles não devem saber trepar direito. – disse ela – Estão muito preocupados com todos os problemas e com o dinheiro dos cofres públicos e com a crise. Acho que não têm tempo para essas coisas.

– Hmmm. E você está se mostrando uma especialista no assunto.

– Claro! Já estive com muito homem, e a profissão influi bastante no modo que trepam. Uma vez eu namorei um rapaz universitário que não sabia transar direito. Ele estava sempre preocupado com o certo e o errado e com as coisas da filosofia. Não conseguia se soltar. Acho que o sexo não era uma coisa importante pra ele.

Não respondi nada.

Olhei para Júlia deitada sobre o chão frio de cimento batido. Eu a adorava. Adorava o jeito que falava sobre coisas que só ela parecia perceber. Adorava o jeito como fazia essas garotas de faculdade parecerem tão pouco interessantes.

Julia era mais velha do que eu e já tinha vivido amancebada com um homem, mas não tinha filhos. Isso era bom. Vivíamos apenas para nós dois. É perigoso namorar uma mulher que tenha filhos. Eu tenho um coração mole e aos poucos iria trabalhar feito um jumento para alimentar bocas que eu não gerei.

– Acho que qualquer homem treparia direito com você, querida.- disse eu – E se não trepasse, qualquer um poderia ver que algo está muito errado com ele.

Julia riu e rolou sobre o chão ficando de frente para mim.

Era maravilhoso.

Nós tínhamos apenas mais um mês de seguro desemprego e eu deveria estar preocupado em procurar trabalho. Mas estávamos felizes. Eu queria adiar as mudanças o maior tempo possível. As mulheres não reagem bem às mudanças. Elas mudam de humor o tempo inteiro, não conseguem lidar com mais instabilidade vinda de fora. E Julia me fazia feliz, me dava sossego. Eu escrevia como nunca e quando ela chegava do trabalho dávamos uma olhada no que ela conseguiu surrupiar da cozinha e fazíamos o jantar. Era uma farra. As pessoas podiam achar que nós estávamos em apuros, mas eu sentia que tinha tudo que precisava ali naquele mesmo quarto.

 

Como um exército

26/02/2011

Durante todos os primeiros anos de colégio eu nunca tive uma chance de jogar futebol. Eu não deveria me importar com isso, mas a minha vida inteira se resumia a ir à escola. Sair fracassado na única tarefa que me era cobrada dava uma sensação horrível. E o futebol realmente parecia ser uma coisa bem importante.

Eu era um homem marcado pelo erro. Arruinara todas as chances de provar o meu valor nos esportes e nunca mais restaria pra mim uma vaga em qualquer time. Eu poderia jogar voleibol, se eu quisesse, mas era humilhante. As meninas jogavam voleibol.

Eu era o único cara da classe a não praticar esporte nenhum, talvez o único cara do MUNDO. Eu tinha visto na TV, caras sem braço praticavam esportes nas olimpíadas.

Ficava sentado num canto esperando o intervalo acabar.

Os garotos da minha turma nunca conseguiam arrumar uma bola decente, as crianças maiores sempre tinham prioridade, então eles se viravam com o que podiam. Garrafas de plástico, bolas de meia, tampas de garrafa, qualquer coisa que pudesse ser chutada e perseguida. Certa vez chutaram uma lata de refrigerante amassada e ela acertou direto na cara de um dos meninos da outra turma. Alguns dos garotos disseram que ele perdeu o olho. Acreditei neles.

Um dos meninos endinheirados da classe terminou de chupar o seu refrigerante, atirou a garrafa no chão e disse:

– Certo, vamos jogar futebol.

Os caras que mais sabiam jogar tinham o direito de escolher os seus times. Cada um escolhia um homem, até que todos tivessem acabado. Nunca sobrava vaga alguma para mim.

Escutei de longe:

– Ei, falta um jogador no nosso time. Vamos ter que chamar o Bravo.

– O quê?

– Ele é um otário!

– Vamos jogar com um a menos!

– Olha gente, isso não parece certo. Eu não vou jogar contra um time com um homem a menos.

– Ei bravo – um dos garotos gritou -, quer bater uma bolinha?

– Ok galera, vamos cagá-los à pau – respondi

Era a minha chance. Eu só precisava não fazer algo estúpido, mas isso é bem difícil quando não temos a mínima idéia do que estamos fazendo.

Começamos a jogar. As meninas nos assistiam. Algumas até usavam maquiagem. Éramos famosos!

A garrafa amassada rolava de um lado pro outro. Eu me preocupava em correr atrás dela, sabendo que quando a alcançasse, não saberia o que fazer. Alguns dos meninos não estavam nem aí para jogar. Só queriam exercitar sua violência. Muitos de nós levávamos vidas muito estúpidas e com pouquíssimo amor de quem quer que seja. Garotos assim só queriam se sentir no controle. Era duro demais.

Aquilo não era futebol de verdade, o que importava mesmo era se destacar no meio da multidão. Eu corria e gritava, tentava me misturar, tentava não parecer tão sem jeito. Algumas vezes a garrafa batia na minha canela e espirrava para longe, eu fingia que era de propósito.

Numa dessas a garrafa veio parar nos meus pés. Os garotos corriam na minha direção. TODOS eles. Eu não sabia o que fazer, estava nervoso pra burro. Então pensei: foda-se essa merda, vou encher o pé.

Foi terrível.

A garrafa bateu na parede e ricocheteou para longe, eu a acompanhava com os meus olhos. O miolo da minha canela doía. A garrafa passou rasgando por todos os meninos e atingiu o lanche de um cara que nem estava jogando.

Ele olhou para sua comida no chão e para mim e então disse:

– Seu desgraçado, eu vou matar você!

Eu queria tê-lo acertado na cara.

– Você me deve 50 centavos!

– Escuta, cara eu não tenho dinheiro.

– Ou você me compra outro lanche, ou teremos uma briga!

Os outros garotos pararam de jogar e nos rodearam, alguns ficavam atiçando o outro menino. Égua, vai deixar? Eu não deixaria se fosse comigo. Olhe só pra ele, é um maricas! Acabe com ele.

Uma briga era muito mais interessante que futebol. Para mim que nunca soube jogar bola, não saber brigar era mais humilhante ainda.

O menino veio ciscando na minha direção e me acertou a orelha.

Eu gelei.

Não foi a dor, foi a surpresa. Ele ficou parado na minha frente e um dos garotos gritou.

– VAMOS BRAVO, MEXA ESSE SEU RABO!

Foi como um tiro de largada. Parti pra cima dele de braços abertos. Acho que o acertei no pescoço. Ele era bem maior do que eu, mas caiu levando as mãos à garganta.

Eu esperei ele levantar. Não sabia direito o que eu estava sentindo, mas era gostoso. Queria que ele levantasse para eu enchê-lo de porrada.

Mas ele não levantou. Com as mãos agarradas ao próprio pescoço, ele chorava e puxava os meninos pelas calças.

– Acho que você entupiu a garganta dele pra dentro!

– Cristo! Acho que ele vai morrer!

– Corram, alguém vai chamar a coordenadora.

A situação se agravava a cada minuto. A coordenadora significava problemas.

Depois de algum tempo ela chegou, olhou todos os outros garotos e perguntou quem era o responsável por aquela bagunça. Todos os braços apontavam pra mim. Ela me puxou pelo braço e me arrastou até sua sala. O garoto continuava sem fôlego, jogado sobre um dos bancos. Achar um culpado parecia mais importante do que ajudá-lo.

Ela sentou-se atrás de sua mesa e começou a torcer clipes de papel.

– Você realmente machucou aquele garoto não é? Por quê?

– Eu não sei.

– Os pais dele vão querer saber o porquê, meu filho. Você acha que essa escola é alguma espécie de academia de boxe?

– Ele disse que iria me matar! Eu precisei reagir.

Ela parou e escolheu bem suas próximas palavras. Queria me fazer sentir mal pelo o que eu tinha feito. Esse parecia ser o seu trabalho. 12 diplomas estavam enquadrados em sua parede e seu trabalho era ferir crianças. Que merda de emprego, pensei. Seus cabelos tinham uma cor estranha. Não eram cores naturais. Por trás dos óculos, ela me encarava como se estivesse a contemplar um grande monte de bosta.

Nada naquela sala parecia certo. Nada estava à meu favor.

– Eu vou escrever um bilhete em sua agenda. Quero vê-lo assinado por seu responsável amanhã.

– Tudo bem – eu disse

Carimbou minha agenda. Notei que ela caprichou na ortografia. – Não queríamos desentendimentos, certo? – Ela alcançou-me a agenda fechada e eu a coloquei dentro de minha mochila. Eu não queria nem olhar. Queria fingir por algum tempo que aquilo não estava acontecendo.

Saí da escola e desci até o pátio, os outros garotos estavam brincando. Eles me viram e correram até mim.

– Ei, Bravo, você pegou aquele desgraçado, não?

– É! Os caras da turma agora o chamam de goela!

Todos riam, estavam contentes. O acontecido realmente parecia ter sido uma coisa importante. Um dia pra ser lembrado. Caminhei pelo pátio como um exército de um só homem. Eu não mais precisava do futebol.

O esticar da corda

22/02/2011

Eu estava prestes a terminar tudo, procurando nos bolsos da calça algo para me ajudar a esticar a corda quando achei alguns trocados.

A morte está à espreita em todo o lugar. Sempre esperando descuidos. Esperando um dobrar da esquina. Esperando-nos atravessar a rua fora da faixa. Esperando por uma briga de bar. A paciente espera para nos ver agonizando. Tudo que podemos fazer para enganá-la é escolher a nossa própria hora.

Soltei a corda e depositei os trocados na palma da mão. Algumas moedas eram de 1994. Por quais bolsos elas passaram até chegar ao meu? É uma coisa doida pra pensar.

Decidi que seria uma grande bobagem desperdiçar esse dinheiro, já que muito provavelmente eu deveria ter feito algo profundamente desagradável para ganhá-lo. Alguma dessas coisas estúpidas que fazemos por uns trocados. Deixar esse dinheiro para trás me levaria direto ao inferno.

Deixei o apartamento e a corda para depois.

Desci em direção ao bar do Tibério.

Não estava lotado. As comidas ficavam expostas no balcão. Sentei-me e pedi um café. Tibério me olhou na cara e caminhou penosamente até a cozinha do bar. Sobre nós, um quadro com o rosto de Padre Cícero velava o estabelecimento.

Ele trouxe o café. Estava forte demais. Bebi alguns goles e pensei em pedir um pouco mais de açúcar, mas desisti. É melhor não abusar da paciência desses caras. Ele podia mandar algum dos entregadores cuspir ou ejacular no meu café e esse era o tipo de dúvida que eu não queria levar de volta até o apartamento.

Eu estava aproveitando meu café quando esse sujeito sentou-se ao meu lado e pediu uma cerveja. O rosto era muito redondo. Tinha olheiras profundas. Era duro olhar para ele.

– Você está parecendo merda pisada, amigo. – disse eu

Não havia nada a me preocupar. Tudo estaria acabado e eu estava em paz. Poderiam me colocar perante um exército e ainda assim eu cagaria na cara dos soldados.

– Você também, na verdade. – ele respondeu

O meu reflexo nas paredes finas da xícara de vidro não o deixava mentir. Ele era um homem corajoso ao dizer isso a um completo estranho nessas bandas. Poderia ser um cara como eu.

– Você bebe? – perguntou

– Claro.

Ele pegou um dos copos do balcão e o encheu de cerveja pra mim. Ao contrário do café, a cerveja descia suave. Uma massagem na garganta.

– Obrigado, compadre.

– O que você faz pra viver? – perguntou ele

– Sou escritor.

– E se não fosse escritor, o que faria?

– Boxe amador.

– E qual é a relação nisso? – perguntou após servir-me mais um copo.

– Todas do mundo. Alguns idiotas é que aumentam as diferenças.

– Isso é verdade. Temos uns esportistas bem burros por aí e…

– Falo dos escritores.

Bebemos mais algumas garrafas e o sujeito foi bem amigável. Ficava calado olhando para o tempo. Conversávamos um pouco, não nos deixando levar pelo desespero que algumas pessoas têm em manter contato o tempo inteiro. Parece que não calam a boca nunca!

– Escuta, eu não perguntei o que você faz.

– Eu sou corno. – precipitou-se ele

– Eu não sabia que isso estava dando dinheiro. Onde pego meu cheque?

– Olha cara, eu estou tentando abrir meu coração aqui, tudo bem? Não quero que você pense que eu sou um bebê chorão ou que eu sou uma espécie de veado. Só não faça pouco de meus sentimentos. Eu estou sofrendo, porra.

– Tudo bem, tudo bem, compadre. Vamos me fale dela.

– Ela estava fodendo com um colega de trabalho meu. Eu chamei uns colegas da firma para tomarem uma cerveja lá em casa. Pensei em ser camarada e é assim que me mostram gratidão. COMENDO MINHA MULHER EM MINHA PRÓPRIA CAMA. Aqueles desgraçados, mal virei de costas e já enfiaram um dedo sujo no meu rabo!

– Está tudo bem compadre, coloque tudo para fora, vamos.

Ele abriu sua carteira e retirou um pedaço de papel. Uma fotografia de sua esposa. Alcançou-me a fotografia, ela era bonita e parecia saudável, agradável aos olhos.

– Sua puta! – eu disse – Como diabos você pôde ter coragem de fazer isso com meu amigo aqui? Sua puta!  Sua puta! SUA PUTA! PUTA!

– Ei amigo, está tudo bem, vamos com calma. – disse puxando a fotografia de minhas mãos.

Ele estava acabado. Não parava de pedir mais e mais cerveja, todas em sua conta. É perigoso beber com um homem assim nessas bandas da cidade. As pessoas farejam a grana e tentam nos extorquir o tempo inteiro. Os galegos e suas quinquilharias, as putas se insinuando. Até mesmo sua esposa, oferecendo AMOR em troca de uma vida confortável montada na sua grana e no pau do seu amigo.

Vivemos em uma sociedade cheia de ladrões. Políticos, médicos, vendedores, advogados e bebuns e mendigos, todos tentando arrancar algum pedaço de nossos pertences.

– Eu a matei. – ele disse – matei ela e aquele filho-da-puta que dizia ser meu amigo. Ainda há pouco, antes de vir para o bar, peguei os dois transado. Os diabos estavam cheios de tesão! Nunca vi ninguém foder daquele jeito. Fiquei enojado. Em nome de Deus, eu tinha que parar aquilo. Então fui até meu armário e busquei a .45 e atirei na cabeça do filho da puta. Diabos, o pau dele ainda estava dentro dela! Ela tentou se explicar, mas eu atirei em sua barriga. Saí e a deixei agonizando sobre o nosso tapete. A porra do tapete. Ela sempre reclamava das minhas sujeiras no tapete. Agora está lá derramando todo aquele maldito sangue sobre ele.

– Olhe, companheiro. Eu não estou aqui para julgar ninguém. – respondi.

Não havia nada que eu pudesse dizer. A morte realmente estava em todo o lugar.

– Eu não quero ir para a cadeia. E se alguém tentar comer o meu rabo? Eu não sobreviverei na cadeia. O que devo fazer? Oh, Cristo.

O sujeito chorava. Seus olhos estavam vermelhos como tochas. mas já não era tão duro olhar para ele. Ele estava destruído, arregaçado como uma jaca atirada do 10º andar.

– Escute, compadre, por que você não volta para casa e liga para os tiras e avisa que os encontrou daquele jeito? Eles irão acreditar em você. Vão perceber que ela era apenas uma puta se aproveitando de você e que o amante atirou nela e depois resolveu esburacar a própria cabeça. Você parece já estar pagando por seu crime, não precisa de uma cadeia onde provavelmente irão comer o seu rabo.

Ele olhou para mim e repousou uma nota das grandes sobre o balcão e deixou o bar sem dar uma palavra. Parecia seco. Esvaído de vida.

Com o dinheiro do sujeito paguei a conta, recebi o troco e deixei o bar.

Estava bêbado.

Caminhava de volta para o apartamento e para a corda quando senti algo tilintar em meu bolso. Enfiei a mão e encontrei o dinheiro do troco do bar. Suspirei e olhei o relógio. Ainda havia tempo para ir em algum outro lugar.

 

Acertando a pontaria

21/02/2011

A noite começou como um erro. Bebi algumas cervejas e perambulei pela casa. Estava bêbado.

Beber em casa me causa pânico. Quando estou na rua nada me surpreende, mas não aqui. Não me sinto seguro vendo os meus muros tremendo como na porra de um navio.

Cheguei até o quintal. Caminhei como se tivesse vencido uma multidão e me arremessei na rede. Acima, duas moscas passeavam pelos cordões do varal. Apontei meu dedo indicador e mirei. Vocês não escapam, suas putas. Suas vidas estão em minhas mãos. A morte está em todo lugar, e agora ela se chama Sebastião Bravo.

Acertei a mira.

Veio o sereno.

Gotas de chuva direto em meus olhos. Mas que…

As moscas voaram para longe.

Não foi minha noite.

***

Eu não tinha paciência para nada, nem para sair na rua. Evitava ver todas aquelas caras de cu sorrindo pra mim. Então minha namorada vinha me visitar em minha casa quando queria me ver. Era uma garota boa e decente. Eu que era um fracasso.

Ela entrou e caminhou casa adentro. Eu a seguia contemplando os sinais de suas costas. Paramos na cozinha e eu a servi um copo d’água.

Era maravilhoso. Todo o seu corpo gritava AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR. Eu não podia desgrudar os olhos dela.

– Você deveria ter feito a barba – disse ela

– Ééé.

– Você deveria ter tomado um banho.

– Na próxima vez, querida, na próxima vez.

– Escrevendo? – perguntou

Seus olhos sorriam. Ela estava achando tudo aquilo muito divertido.

– Quando há vontade, querida. – respondi

– Você deveria se empenhar um pouco mais – disse ela gargalhando – que tipo de coisas tem escrito?

– Aquele tipo de coisa que nunca ganha prêmios.

Saltitou pela casa. Eu a seguia como uma criança procurando por um doce. Ela gostava de brincar de gato. A fazia se sentir mais sexy, segura.

Eu concordo.

– Sua TV não funciona. – disse ela acertando os botões da TV

– Bem, ainda me resta o ventilador.

– Com esse barulho eu mal ouço meus próprios pensamentos.

– É isso que gosto nele, querida.

Ela depositou o copo vazio sobre a TV velha.

Aí se inclinou e eu não consegui mais segurar. Olha vamos ali até o meu quarto, lá é legal. O ventilador não faz tanto barulho.

Caminhamos até o quarto e ela tirou suas calças. Sempre assim, tirava primeiro as calças. Gostava de exibir suas pernas para mim. Eu a levantei e coloquei de joelhos sobre a cama, ela ergueu os braços para tirar sua blusa.

– Não se mova – eu disse – permaneça assim.

Ela riu, mas fez o que pedi. Era maravilhoso. Seus olhos eram verdes e seus cabelos loiros despenteados pareciam os relâmpagos vindos direto da cabeça do próprio Deus. Eu a olharia por horas e não ficaria cansado. Vê? Estou ficando sentimental. Aquela garota realmente me pegou.

– Eu não sei se fico muito bem nessa pose. – disse ela

Eu sorri e caminhei até ela. Algumas mulheres estão sempre erradas sobre a sua aparência. Não importa no que estejam pensando, estão sempre enganadas.

– Você está perfeita.

Rolei sobre ela.

Fiquei meio deprimido. Logo tudo estaria acabado. O amor é uma camada fina de gelo que cobre a superfície de uma chapa de vidro. Derrete com o tempo. Nunca dura o quanto queremos que ele dure. Queima rápido demais ou simplesmente não vai embora quando não o desejamos. Não é algo que está sujeito a nossa vontade. É uma coisa perigosa, que possui suas próprias agonias, não há nada que possamos fazer para controlá-lo.

Dê-nos tempo o bastante eu estaria chamando-a de puta e ela arremessando garrafas de cerveja contra a minha cabeça.

De qualquer modo abaixei o zíper e deslizei para dentro. O fim da brincadeira. A vingança perversa. Era perfeito. Eu me sentia como um ladrão orgulhoso por seu furto. Vendo-a sob mim, os olhos apertados, as mãos torcendo as cobertas da cama.

Eu estava escrevendo um poema dentro dela. Um dos bons.

Meus olhos podiam rebater o sol. Eu poderia matar todas as moscas do planeta terra.

Toda a guerra por nada

19/02/2011

Eu tinha 12 anos e nada estava a meu favor. Os outros garotos pareciam bem melhores do que eu. Mal sabiam limpar o próprio rabo, mas podiam fazer 50 gols em uma partida de futebol. Eu sempre fui péssimo com jogos, mas sabia como limpar minha bunda de forma decente. Como se importasse.

Eu não fazia questão de assistir aulas de trigonometria, era deprimente. Apenas olhava para ela. Ela não era uma das garotas mais bonitas, mas parecia gostar de mim. Eu gostava dela por isso. Minha aparência não era das melhores. Eu usava o antigo uniforme de meu irmão, longo demais nos braços, curto demais no dorso. Ela parecia não se importar com isso. No entanto, percebi que conversava com uma amiga sobre um cara de outra turma.

Emputeci.

O outro cara não parecia ser tão melhor do que eu. E eu não entendia bem o que as garotas procuravam. Não importa o que eu achava que as agradariam, minhas suposições estavam sempre erradas.

Ao fim da aula o sol estava forte demais para voltar para casa e eu resolvi dar um tempo por ali. Elton, um garoto de minha turma, sentou-se ao meu lado. Os outros garotos o chamavam de leitão porque ele era gordo e rosado. Eu não o chamava assim, não me importava em fazer as pessoas se sentirem piores com elas mesmas, mas de qualquer modo não queria ser visto com ele. Eu já era um perdedor por minha própria conta, ser visto com mais um só me traria problemas.

– O que quer aqui? – perguntei

– Preciso falar com a coordenadora, vem comigo? – seus olhos apontados para o chão, nem mesmo olhando pra minha cara.

– Espere aí. Você tá pensando que eu sou viado, porra?

Ele não respondeu. Levantou-se e foi se arrastando na direção do outro pátio.

– Espera aí – disse eu – vou contigo.

Não conversamos mais nada durante o caminho. Eu não queria fazer o garoto se sentir mal, então o acompanhei. Pelo menos isso me distrairia por alguns minutos.

De longe, sozinhas, minha garota e sua amiga conversavam e sorriram ao ver a gente. Elton olhou-me e disse, elas querem falar contigo, agora é com você.

Eu gelei.

Minhas pernas me conduziam até as garotas e eu andava meio encurvado para a camisa não subir mostrando minha barriga. As garotas cochichavam e riam esperando por mim. Minha garota usava brilho na boca. Cheirava bem.

Eu não estava assustado por aquilo, só não sabia direito o que fazer então fiquei parado esperando que elas fizessem algo. O tempo não passava e elas pareciam estar se divertindo com aquilo. A amiga saiu dizendo que ia deixar-nos a sós e me empurrou na direção de minha garota. Nossas bocas se encontraram.

Ela abriu sua boca e enfiou a língua dentro da minha. Era macio, molhado. Eu não sabia direito o que estava fazendo, mas tinha certeza de que não estava indo tão mal assim. E se houvesse alguma coisa a mais para fazer, diabos, alguém me avisasse, pois eu faria.

Nós continuamos nos beijando por um tempo e eu tinha medo de não saber o que dizer depois que nos largássemos, mas sua amiga nos interrompeu. As duas saíram correndo e rindo e eu me sentia como se houvesse descoberto um tesouro que seria só meu e de mais ninguém.

Nós nunca nos beijamos de novo e algum tempo depois eu soube que naquele mesmo dia ela ficou com mais três garotos. Depois de anos, passei por ela na rua. Fingiu que não me viu.

Indo a lugar nenhum – 1

01/01/2011

É depois de uma longa caminha sob um sol de rachar que você se dá conta de que não vai chegar a lugar nenhum. Eu usava uma camisa azul e todas as vezes que o tecido tocava alguma parte da minha pele ficava marcado por uma nova mancha de suor.

Eu carregava uma pasta que ia revezando de mão em mão cada vez que ela se tornava pesada demais para carregar com uma mão só. Por alguma razão eu evitava trocar a pasta de mão quando passava por alguma mulher bonita. Talvez eu estivesse envergonhado por parecer um frangote. Mas o que é não conseguir carregar uma pasta, comparado a não ter dinheiro suficiente para um mísero tíquete de ônibus e estar com a roupa inteira manchada de suor?

Esse cara de uma companhia de empregos me telefonou convocando-me para uma entrevista e eu estava a caminho. As coisas não iam exatamente mal. Eu estava sóbrio há alguns dias e ao contrário do que pensávamos minha namorada não estava esperando um bebê. Além de me tornar pai, eu não via qualquer outro motivo bom o bastante para arranjar um trabalha, mas eu poderia contar com uma grana a mais. Menos fraldas e mais cerveja, afinal.

Chegando ao endereço que me passaram, um sujeito me acompanhou até uma sala. Cerca de 8 rapazes esperando. Todos procurando parecer eficientes com suas caras milimetricamente barbeadas.

No fim da sala, uma mulher estava sentada atrás de uma mesa folheando alguns papéis. Eu sentei próximo aos outros rapazes e tentei copiar suas expressões compenetradas enquanto esperava para ver se a mulher tinha pernas tão ótimas quanto a sua cara demonstrava ter.

Ela distribuiu uns papéis entre nós e recolheu nossas pastas que continham fotos 3×4, currículos e o que mais achássemos importante trazer.

“Esse documento que eu os entreguei é apenas um pequeno teste.” disse ela. “São situações do cotidiano, e preciso que marquem as alternativas que mais se assemelhem com a atitude que vocês tomariam nas determinadas situações. Lembrando que não existe resposta certa ou errada, isso é apenas um teste de personalidade.”

Olhei ao redor. Os rapazes a observavam atentamente e assentiam com a cabeça enquanto ela passava outras instruções. Eu apenas me preocupava em não ser surpreendido enquanto olhava para seus peitos.

Então a dama girou nos calcanhares e caminhou de volta para sua mesa. Mas que grande pedaço de rabo. Eu precisava deste emprego.

Eu comecei a ler as situações no documento do teste e nenhuma alternativa se parecia com algo que eu realmente faria. Então simplesmente comecei a marcar as opções que me pareciam mais sensatas.

Depois de terminar com a papelada caminhei até a mesa para reaver minha pasta. Saí deixando para trás alguns dos caras que ainda não tinham terminado com todos os testes.

Do lado de fora do escritório o sol brilhava fraco e seria uma bela caminhada de volta para casa. No meio do caminho um garoto que deveria ter uns 10 anos começou a caminhar ao meu lado e puxou firmemente pelo pulso.

“Me dê alguns trocados,” disse ele.

“Olhe pra mim garoto, eu não tenho dinheiro.”

“Mas você tem uma pasta. Os outros homens que saem daquele prédio carregando pastas têm bastante dinheiro.”

“Bem, eu não sou como eles. Acho que nunca serei.”

O garoto fez uma careta e abaixou suas calças balançando seu pequeno pinto para mim. Ele parecia não se preocupar com o que eu faria a respeito.

“Garoto,” disse eu. “você é livre de uma maneira que eu jamais serei.”

Isso provavelmente foi a coisa mais sincera que jamais alguém lhe disse, mas ele apenas continuou balançando seu pequeno pênis até que eu fosse embora.

 

O grande assaltante de ônibus

01/11/2010

Era um dia quente e eu estava no ônibus quando ele subiu. Eu não lembro para onde estava indo ou de onde estava vindo. Com o tempo esse tipo de informação perde sua importância.

Um dia morreremos, mas antes iremos perceber que perdemos nossas vidas inteiras trancados dentro de ônibus cheios ou em pé em filas de banco.

O cara passou pela roleta e gritou. “Eu irei me sentar, paguei a passagem como qualquer um de vocês e mereço escorar meu rabo em alguma cadeira.” E então ele se deslocou por entre as pessoas, algumas vezes tendo que empurrá-las. O ônibus estava realmente bem cheio.

Sentado de longe, eu o observava se aproximar de mim. Ele era um daqueles tipos barulhentos. Um que você não gostaria de ter ao seu lado, mas a sua sorte insiste em aproximá-los.

Depois de esbarrar em um cara ele gritou. “Ei, seu grande pedaço de merda. Cuidado comigo, fique fora de meu caminho, eu sou um assaltante perigoso.”

Então o grande assaltante sentou-se ao meu lado.

– Ei, sua vagabunda obesa, da próxima vez tente não passar óleo de motor no seu cabelo – gritou para uma moça a nossa frente.

Depois de uma brecada brusca do ônibus, ele olhou para meu rosto e então para minha bolsa e perguntou-me o que havia nela.

– E o que você tem com o que tenho na bolsa? – Perguntei-lhe.

– Ei cara, é bom você mostrar um pouco de respeito. Eu sou um grande assaltante. Eu sou perigoso, homem. Eu posso roubá-lo a qualquer momento.

Não respondi nada dessa vez.

– Ei, balofa. Quando eu passar por você seu cu não será perdoado! Qual a diferença entre seu rabo e sua cara? Eu não consegui encontrar nenhuma.

Enquanto ele falava, algumas pessoas riam, algumas pessoas olhavam com caras de indignação e outras apenas o ignoravam.

Eu não conseguia entender as pessoas que riam.

– Ei motorista, espere e verá. Eu vou assaltar esse ônibus! Eu sou perigoso, compadre. Eu sou a porra de um maluco. – Ele gritava enquanto ria e me cutucava com um dos cotovelos.

Eu não conseguia mais agüentar sua voz, já estava começando a ficar enjoado quando ele me perguntou novamente o que havia em minha bolsa. Eu só estava rezando por um acidente de trânsito, um pneu furado, falta de combustível, o retorno de Jesus Cristo ou a chegada dos cavaleiros do apocalipse.

Qualquer coisa que o fizesse fechar a maldita boca.

– Escute garoto, não me importo se você acha que é a porra de um assaltante, só cale a sua maldita boca ou eu te arremessarei pela janela. – Disse-lhe.

– Você se acha durão não é? Vou deixá-lo sobreviver, compadre, o mundo precisa de mais pessoas duronas como você. – Disse olhando para mim e então gritou – Estão me ouvindo? Esse cara aqui ao meu lado é um cara durão. Mas vocês não têm saída. Eu sou muito perigoso, estão me ouvindo? Muito perigoso!

Sua voz soava de um modo engraçado e algumas pessoas se puseram a rir. O grande assaltante ficava aborrecido e inquieto ao meu lado, se acotovelando e tentando achar uma posição confortável na poltrona. Ele se manteve calado até chegar ao meu ponto de ônibus. Eu desci e observei o ônibus fazer uma curva e sumir pelas ruas da cidade.

Eu já estava bem longe quando o grande assaltante estourou os miolos do motorista e anunciou o assalto.

Os deuses estão em guerra

15/10/2010

Eu estava sentado, terminando uma cerveja enquanto namorava um conto que acabara de escrever quando Madalena bateu à porta. Levantei-me, matei a cerveja e fui atendê-la.

Ela usava uma blusinha azul marinho que só realçava a beleza e suavidade de sua pele branca. Abraçamo-nos por alguns instantes e no fundo da sala, pude ver-me colado ao seu corpo no reflexo de um espelho. O contraste de nossos corpos. Sua pele suave contra mim, nu da cintura para cima, com meu corpo castigado pelo sol, uma barba de dez dias e ombros de gorila. Através do espelho pude ver a violência que minha imagem se unia a de madalena. Subversiva como um estupro. Uma ofensa a sua ternura. Mas, ainda assim, a expressão de seu rosto transbordava tranqüilidade. Mesmo com uma figura animalesca e obscena se precipitando sobre ela. Daríamos um belo quadro se fossemos ilustrados por um bom artista pagão.

– Você está maravilhosa hoje. – Disse-lhe quando nos separamos.

– Só hoje? – Madalena riu.

Não a respondi.

Ela caminhou pelo quarto, observando tudo ao seu redor. Parecia-me flutuar. Um anjo flutuando em meu próprio apartamento. O meu caderno, que jazia aberto sobre a escrivaninha prendeu sua atenção por alguns minutos. Madalena era professora de literatura e parecia se interessar por meu trabalho. Às vezes eu me perguntava se ela realmente gostava de ler-me, ou se interessava por mim da mesma maneira que um biólogo se interessa por um animal portador de alguma anomalia.

Madalena olhou-me e por fim perguntou:

– O que anda escrevendo?

– Éééé, o mesmo de sempre. Contos curtos.

– Você deveria dedicar-se a um romance.

– Não tenho laudas suficientes.

– Posso ler este?

– Claro.

Alcancei-lhe o caderno e Madalena começou a ler sem ao menos sentar-se. Era a história de uma prostituta que se apaixonou por um padre, que por sua vez era um pedófilo homossexual.

Madalena e eu estávamos nos vendo há algum tempo. Ela era inteligente, limpa e sensível. Ao contrário das outras mulheres a quem eu estava acostumado. Eu tinha esse tipo de atração por mulheres hostilizadas. Ex-prostitutas, divorciadas, abandonadas ou que já tenham sofrido qualquer tipo de abuso. Elas vinham frágeis e eu as nocauteava com amor puro. Faziam-me sentir o máximo no início. Mas após algum tempo, todas passavam a agir dissimuladamente e foder com todos os caras que viam pela frente. E eu passava a imaginar que nem todas as mulheres eram vagabundas, apenas as que eu estava apaixonado.

Mas não Madalena, ela me fazia sentir diferente. Pela primeira vez em anos eu estava com uma mulher boa de verdade. A sensação de estar com alguém assim era ótima. O sentimento de satisfazer uma boa mulher me fazia sentir forte e inspirado. Eu me sentia eletrificado quando transávamos. Essa é a verdadeira imortalidade.

Ela terminou a leitura e eu pude perceber seu rosto se transformar. Sua tranqüilidade aparente tornando-se transtorno.

– O que você pensa que está fazendo com sua vida?

– O que você quer dizer com isso?

– Você passa o dia inteiro bebendo e escrevendo essas porcarias a mão. Histórias obscenas sobre prostitutas, mendigos e bêbados! Você não tem nada melhor a dizer? Está desperdiçando todo o seu tempo, desperdiçando todo o seu talento! Você é incapaz de escrever uma história descente de amor! Você é incapaz de escrever algo inteligente sobre política!

– Os deuses estão em guerra, não posso ignorá-los. Minha raiva é um presente para o mundo. O amor não pode salvar o mundo.

– Por que você é tão negativo? A vida pode ser bonita, porra! Quem você pensa que é para passar os dias trancado nessa espelunca, fingindo ser Henry Miller? Essa merda já bastou pra mim! Você não tem o direito de  pedir-me para conviver com isso. Não tem mesmo!

Seus olhos eram grandes e eu observei suas pernas longas por tempo suficiente para ficar excitado.

– Eu sou um gênio, querida. O único problema é que ninguém consegue enxergar os fatos.

Aproximei-me de Madalena e mordisquei seu ombro enquanto acariciava suas pernas.

– Você sabe como tratar uma mulher – Disse-me enquanto se despia e caminhava até o quarto.

Desabotoei minhas calças e a segui quarto adentro. Transamos até escurecer.

Mais tarde, enquanto ouvia Madalena mijar no banheiro, pensei em escrever uma história de amor. E foi isso que fiz.

Mais uma camada para o sofá

16/09/2010

Ademar Marinho estocava violentamente com seu cacete o traseiro de sua esposa adormecida. Teresa despertou lentamente, sentindo o cheiro de uísque que o corpo de seu marido emanava. O cheiro habitual de seu suor, que era sempre substituído pelo odor de bebida, como se todos os líquidos de seu corpo houvessem sido substituídos por álcool. Tentou fingir estar adormecida, mas as investidas de seu marido eram cada vez mais descaradas, eliminando toda sua vontade de permanecer na cama. Por fim, Ademar a surpreendeu ejaculando em sua camisola mesmo estando com o pau meia-bomba. Girou a cabeça de sua mulher e chupou sua língua violentamente.

Teresa levantou-se da cama, olhou por cima do ombro e viu Ademar limpando o pênis em uma toalha de cama. A figura bestial de seu marido, suado, urrando de cansaço, peludo como um urso. O homem que a alimentava e vestia, mas era visto como um herói que causa repulsa. Ainda calada foi ao banheiro. Ademar reclamava o tempo inteiro sobre como o quarto estava bagunçado e como os lençóis de cama estavam sujos.  Teresa esfregava com um pedaço de sabão e toda sua raiva a camisola suja de sêmen. Não sentia nada por Ademar a não ser ódio. Lamentava-se por não ter morrido junto com o bebê anos atrás. A voz de seu marido chegava até ela como fantasmas de seu passado. Lembranças que a faziam acreditar que sua mãe estivera certa o tempo todo. A sensação de que não há escolha.

– Sua cretina de merda! Venha já para o quarto! Eu quero seu rabo firme e aqui, ao alcance de minhas mãos!

– Não me sinto bem, Ademar. Deixe-me, por favor.

– Você não está se sentindo bem? Eu estouro meu rabo por aí tentando colocar comida dentro da porra dessa casa e você vem me dizer que não está se sentindo bem?

As esfregadas cada vez mais frenéticas começaram a desmanchar lentamente as costuras da camisola, de onde a mancha já largara há tempos, mas que Teresa ainda conseguia farejar os cheiros de bebida, de porra e de fracasso que se impregnaram tão profundamente em suas narinas e em sua vida.

– E olha só a porra desse sofá coberto com os malditos trapos de uma rede velha! – gritou Ademar enquanto vestia suas calças – você escolheu por três malditos dias a porra da estampa para quê então? Para escondê-la com a porcaria de uma capa surrada?

– É só para manter o sofá conservado. – lágrimas rolavam de seus olhos, as pontas de seus dedos já enrugadas de tanto esfregar.

– Conservar porra nenhuma! Eu vou lhe rasgar em duas, sua cadela!

O som dos passos de Ademar, cada vez mais próximo, anunciava a surra que vinha a caminho. Teresa lembrou-se de todas as surras que levara, lembrou de todas as vezes que com um olho roxo teve que sorrir para um vizinho que não acreditara tanto na história de que ela havia caído da escada. Fechou os olhos e tentou desligar-se dali, primeiro tentando não ouvir o som da respiração pesada de seu marido, depois se concentrando no cheiro de sabão que rodeava todo o banheiro com piso de cimento batido. Porém, o som do telefone irrompeu dentro de seus pensamentos.

– Porra! – gritou Ademar – quem deve ser uma hora dessas da manhã?

– Deve ser uma de suas malditas putas!

– Tirando você, eu não tenho puta nenhuma.

Ademar caminhou como um embriagado caminharia até o telefone, puxou-o do gancho e atendeu.

– Alô?

– Ademar, querido. Precisa quebrar o meu galho, amor.

– O que foi agora?

– Preciso de ciqüenta mangos! É urgente dessa vez, por favor, papi. Me ajude.

– Estou a caminho, mas não vá se acostumando.

Pousou o telefone no gancho e sentou-se para calçar suas botas.

– Preciso dar uma saidinha, você mantém o seu rabo quietinho aí. Quando eu voltar temos muito para conversar.

– Eu sabia que era uma de suas putas, Ademar! Por que você faz questão de me humilhar dessa forma? Eu não mereço isso. – Teresa cuspia enquanto falava. Sua boca não conseguia acompanhar a violência que cada palavra era proferida – Você é um porco, um maldito porco escroto, bêbado e fedorento. Eu odeio você!

Ademar levantou-se calmamente da cadeira onde se calçara e caminhou até sua mulher que mordia os lábios para não chorar e tremia de pavor. Levantou uma de suas grossas mãos e desceu violentamente contra a face de Teresa, que rodopiou várias vezes antes de cair no chão da sala.

– Eu falei… Pra você… Manter seu rabo quietinho… Na porra da casa!

– Teresa rastejava pelo chão, com o rosto em brasas. Engasgada com o choro, não conseguia pronunciar nenhuma palavra, mas se agarrava a perna de Ademar, tentando o impedir de sair de casa.

– Deixe-me sair! Eu não demoro, quando voltar nós conversamos!

– Por favor, querido – Teresa soluçava – não me deixa aqui sozinha, fica comigo. Eu imploro.

Ademar conseguiu se desvencilhar dos braços de sua esposa e saíra de casa. Deu a partida no fusca desbotado e foi ao encontro de Marta. Chegando à área das putas velhas da cidade riu ao vê-las se oferecendo tão barato, a qualquer um que tivesse dinheiro para pagar. Virando a esquina avistou Marta e reduziu a velocidade do fusca até parar ao seu lado. Ele sorriu e estendeu o dinheiro através da janela, ela sorriu com seus dentes esverdeados e abriu a porta do fusca. Os dois se beijaram apaixonadamente e Ademar perguntou como estava sendo seu dia. Marta respondeu que tinha pegue um cliente que não estava muito limpo e precisava de um banho urgente. Depois lhe explicaria (e compensaria) porque precisava das cinqüenta pratas.

Sorrindo mais uma vez, Ademar Marinho deu partida no velho fusca e partiu enquanto observavam as outras putas se distanciarem no retrovisor.

Promíscuo Plínio

10/09/2010

– Sr. Bravo, Sr. Bravo! – três batidas na porta.

Era a velha senhoria a chamar meu nome, batendo na porta de meu quarto. Eram 7 da manhã e eu estava com uma ressaca de doer. Ainda tinha algumas horas antes de levantar para o trabalho, e queria aproveitá-las da melhor forma possível. E isso não incluía atender uma velha viúva louca que provavelmente só iria me fazer perder tempo.

– Sr. Bravo! – Insistiu com três batidas, dessa vez mais fortes.

– Diabos, mulher! Deixe-me dormir! – gritei da maneira mais gentil que pude àquela hora da manhã.

– Preciso saber se o senhor está com água, os outros moradores estão reclamando! Não quero ter que acordar Seu Plínio a toa.

Seu Plínio era um velho negro esquelético que morava na quitinete localizada no fundo do terreno. Sua mulher havia morrido há alguns meses, e sua aposentadoria não era suficiente para comprar comida e pagar o aluguel. Desde então ele fazia pequenos serviços para Dona Brigite, a dona dos aposentos. As pessoas costumavam dizer que Dona Brigite era uma velha tarada e que Plínio a fodia em troca de alguns trocados ou pratos de comida. Mas as pessoas falam demais. Plínio era apenas um pobre diabo, viúvo e mais fodido do que qualquer um que morasse ali. Dona Brigite só estava tentando ajudá-lo, manter o velho ocupado para não pensar demais na mulher. Ela dizia – Plínio, Plínio, cabeça vazia oficina do diabo. – e pedia  que ele trocasse as lâmpadas do corredor, desentupisse uma privada, consertasse um portão, e agora pediria para que ele checasse a caixa d’água. Apenas uma caixa d’água para uns seis ou sete quartinhos, que se dividiam em um modesto prédio de quatro andares.

Sem mesmo checar a torneira gritei para Dona Brigite que estava sem água, mas não me importava muito com isso. Ela agradeceu-me e caminhou em seus passos pesados até o quartinho de Plínio, que já havia acordado e se aprontado ao ouvir toda a gritaria. Levantei-me da cama e fui até a porta esperar para ver passar Brigite e Plínio, com sua caixa de ferramentas e suas roupas surradas que recebia de doação dos outros moradores. Eles subiram e Plínio me olhou. Tentei acenar com a cabeça e balbuciar um bom dia, mas aquele olhar me paralisara. Não entendi muito bem, mas Plínio me disse algo com aquele olhar, pouco antes de morrer.

Eu procurava minha camiseta para ir ao trabalho quando passei em frente à janela e ouvi gritos de dona Brigite. Num piscar de olhos vi um vulto passar diante de mim, indo em direção ao chão. Porra – pensei – Plínio derrubou sua caixa de ferramentas, desse jeito sairei de casa sem nem escovar os dentes. Mas não, ao abrir a janela e ouvir mais gritos de Dona Brigite, vi que Plínio caíra do terraço. Seu corpo aos frangalhos na calçada era uma massa disforme de ossos e sangue pisado. Dona Brigite gritava como quem estivesse vendo o próprio diabo: “ELE PULOU, POR DEUS! O HOMEM SE JOGOU, ALGUÉM CHAME AJUDA!”

Se algum dia eu cometesse suicídio seria pulando do lugar mais alto que eu pudesse encontrar. Sentiria o vento machucar o meu corpo, e me estraçalharia todo ao tocar o chão. Depois alguém viria com uma pá para recolher o que sobrasse de mim. Alguém limparia meu sangue com uma mangueira antes mesmo que ele pudesse coagular.

Ainda chocado, desci as escadas rumo ao trabalho e passei pelo local onde Plínio caíra. Uma multidão de pessoas formava um círculo ao seu redor, todos comentando sobre o quanto ele estava triste desde que sua mulher morrera. O promíscuo Plínio, que todos diziam foder Dona Brigite por comida agora era o Pobre Plínio, o Triste Plínio, Plínio Suicida. Não era uma coisa agradável de ser ver mas todos brigavam, se empurrando ao redor do cadáver para ver um pedacinho de desgraça.  Respirei fundo o cheiro metalizado que o sangue deu ao ar. Acendi um cigarro e caminhei até o ponto de ônibus.