Archive for the ‘Dores de cabeça’ Category

24/03/2011 07:42

29/03/2011

Usar o computador tem me deixado irritado ultimamente. Eu não sei se há algum problema com o meu mouse (ou comigo), mas o cursor sempre acerta o ícone de algum programa que eu não planejava abrir.

Bem, eu não tenho uma super máquina moderna aqui, então fica difícil esperar que a coisa toda volte ao normal. Por isso tenho escrito a mão.

Eu não posso simplesmente abandonar tudo isso, certo?

De vez em quando me engata uma vontade de escrever bastante, mas meu pulso dói pra burro. Então penso, “foda-se isso e que tudo vá à merda! Eu não nasci para fazer algo assim!” Mas em algum lugar, escondido aqui, eu sei que mantenho uma faísca. Uma pequena faísca que talvez possa criar um incêndio qualquer dia desses.

Estou usando um caderno que comprei para fazer anotações da faculdade. É uma coisa boa, você sabe. Pelo menos não foi um gasto de dinheiro à toa. Não costumo fazer muitas anotações durante as aulas. A faculdade é um lugar desgraçado e triste pra mim. A maioria dos lugares é. Eu não me lembro de ter passado muitos momentos bons por lá.

Mas eu não sou desses tipos de caras que esperam coisas boas de qualquer experiência. Eu sei que estou fazendo algo que preciso e que isso tem muito pouco ou quase nada a ver com o que eu quero.

Ou pelo menos quero pensar assim.

 

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03/03/2011 – 05:35

04/03/2011

Eu deveria estar dormindo, mas fodi meu sono por ter passado a tarde inteira na cama. É uma boa vida, essa de vagabundo. Você deveria tentar.

O dinheiro que economizei está no quase fim. Nós sempre gastamos um pouco mais do que esperávamos. Gastamos tudo. Nossa paciência, nossa sanidade, nosso dinheiro. Tudo se vai em pequenos pedacinhos e essas porções são capazes de nos mandar para o hospício. Pergunte a qualquer um.

Algumas vezes é difícil dormir à noite. Quero dizer, a sensação de terminar um dia duro é muito boa, mas o novo dia chegando me preocupa. Às vezes eu me sinto como, – Jesus Cristo! O que há agora? Um homem não pode ter uma folga de vez em quando? Um dia perdido, onde nada aconteça? – É uma sensação bem fodida.

Tenho pensado sobre escritores e acho que não sou como eles. Céline com seus panfletos anti-semitas, Dostoievski perdendo até o próprio rabo em jogos de carta e Henry Miller passando fome em Paris.  Tenho a impressão de que todos eram loucos, e eu não me sinto como um louco, talvez eu até seja, mas não me sinto como um. Sinto-me como uma seta afiada. Uma flecha atirada no meio da multidão.

25/02/2011 – 13:56

25/02/2011

Eu estava zapeando pelos canais de TV até que cheguei nesse programa. Era uma espécie de reality show e os participantes estavam disputando uma prova de resistência. A tarefa era a seguinte: um quarto tinha vários bancos, cada um com um assento diferente. Os participantes tinham que sentar nesses bancos, revezando seus rabos até que um deles achasse que estava cansado daquela merda e desistisse. Alguns assentos tinham pedras, pregos e até uma maldita bola de boliche.

Qual é o problema das pessoas que trabalham na televisão?

Será tão difícil fazer algo DECENTE?

A televisão está lá todo santo dia desafiando as nossas inteligências, tentando nos fazer de panacas. Os programas de comédia são tão ruins que são obrigados a utilizar gargalhadas gravadas para avisar aos telespectadores o momento certo de rir (e como riem esses desgraçados).

Não há alma, não há vida nenhuma naquilo tudo. Então eles exageram. Qualquer idiotice é anunciada como a 3º guerra mundial.

Algumas pessoas gostam de ver filmes de ação para saber como caras durões agem. Eu digo, escolha qualquer trabalhador comum e lhe dê um salário mínimo e uma boa noite de sono e ele chutará o cu de qualquer cara durão da TV.

Eu chutaria.

Até os filmes de romance são uma piada.

Então quando aparece alguém com tenacidade suficiente para conseguir fazer alguma coisa que preste ele é censurado ou cortado. O canal não quer ofender os seus anunciantes.

Eu me sinto deprimido vendo televisão. Penso sobre quantas pessoas estão assistindo aquilo e se esbaldando. Sinto-me um cara sozinho no mundo.

Então escrevo.

23/02/2011 – 18:16

23/02/2011

Escrever está apertado como uma luta de boxe. As palavras saem e não há nenhuma folga entre elas. Sinto-me numa corrida com o mundo desabando às minhas costas. É uma sensação quase boa.

Continuemos.

Tudo o que um cara precisa é de uma boa chance. Alguém está sempre controlando quem merece ou não merece uma chance. Vincent Van Gogh nunca teve chance nenhuma. No seu tempo a concorrência era muito maior e o cara encarregado de distribuir as chances decidiu economizá-lo. Guarda-lo para mais tarde.

Era tarde demais. Vincent estava morto. As pessoas vêm tarde demais os holofotes, microfones, repórteres, o reconhecimento. Todos vêm tarde demais. São como sanguessugas procurando algo que os mantenha vivo, mas se arrastam do seu próprio modo, o modo que mais parece conveniente. Mas eu sou um cara muito jovem. Estarei pronto para chutá-los no rabo quando (se) eles vierem.

Eu estava comendo bolachas esperando o ônibus hoje mais cedo quando esse garotinho chegou com sua mãe. Ele deveria ter algo em torno de 5 anos (eu nunca soube identificar a idade de crianças por sua aparência). De qualquer modo ele ficou me observando enquanto eu comia minhas bolachas, parecia interessado. Eu tive vontade de lhe oferecer algumas, mas sua mãe talvez estranhasse então as guardei em minha bolsa.

Ele usava um uniforme de uma escola pública, seu cabelo se parecia com o meu, quando eu era criança.

 A mãe do menino era uma criatura repugnante. Era grande e velha e gorda e não parava de resmungar sobre os ônibus estarem demorando, sobre o peso da mochila do garoto e sobre ele ficar querendo ir para a rua o tempo inteiro. “CRISTO! O QUE VOCÊ CARREGA NESSA BOLSA, MALDITAS PEDRAS? VOCÊ NÃO SENTE PENA DA SUA MÃE, SEU PEQUENO DESGRAÇADO? E ONDE ESTÃO ESSES MALDITOS ÔNIBUS? ELES SÓ PODEM QUERER ME DEIXAR MALUCA!”

Eu me afastei deles, não queria ficar perto dela. Senti pena do garoto. O que diabos podemos esperar de uma criança crescendo com uma mulher daquele tipo como exemplo?

Ela começou a espirrar e tossir e assoava o nariz com as mãos e as esfregava na mochila. Entupindo a criança com germes. A cada vez que ela espirrava e esfregava as mãos, uma mancha úmida aumentava nos fundos da mochila do garoto. Era detestável.

Dois rapazes também esperavam o ônibus. Conversavam. Eram estudantes. Eles pareciam não estar percebendo o que estava acontecendo ali. Eu estava.

Eu estava começando a ficar enjoado quando avistei do outro lado da rua uma garota que morava em nossa vizinhança. Eu não a via há muito tempo. Ela estava ótima, apesar de ter engordado um pouco. Eu me pus a olhá-la e tratei de esquecer do menino e de sua mãe repugnante. A garota me viu. Não desviei meus olhos dela. Eu queria que ela soubesse que eu estava a olhando.

19/02/2011 – 16:59

19/02/2011

Escrevo em um volume de menor ultimamente. Ao menos a qualidade não é tão questionável. Estou sintonizado, então. Deslizando suavemente ladeira abaixo na velocidade que eu quiser.

Meu humor não anda dos melhores. Eu armo planos, mas sempre algo dá errado, fodam-se os planos então. Não vou deixar esses pequenos fracassos continuarem a foder o meu humor. É muito fácil ser mal humorado, qualquer um pode ser mal humorado.

Li uns poemas de um cara que me mandaram por email. Como eu, ele também está tentando ser um escritor, mas somos muito diferentes. Ele escreve com fúria, indignado por um monte de coisas. Talvez ele ache que assim que as coisas funcionem na escrita. Pra mim parece a porra de um chilique. Um monte de lixo disfarçado de ouro. E tem também os trocadilhos e as frases de efeito. Por que tentar ser inteligente o tempo todo? Prefiro ser rápido como um murro no cérebro. Eu sou?

Você escreve uma dúzia de palavras e espera deixar as calcinhas molhadas e espera que os caras sejam camaradas e o convidem para tomar uma cerveja. Não escreva assim. Não há nenhum sentido nisso.

Tenho me perguntado sobre como Dostoievsky encararia os filmes hollywoodianos, ou como Charles Bukowski lidaria com o advento da internet. Eu tento ignorar todo tipo de merda. Os deuses têm que colocar um escudo cada vez maior sobre nossas cabeças. Não podemos deixar que nenhum filho da puta nos quebre, podemos?


18/02/2011 – 21:39

19/02/2011

Eu larguei meu emprego ontem. Procurava uma maneira certa de como falar sobre isso. Eu precisei digerir. Não falamos do sabor de uma refeição enquanto ainda mastigamos.

Não sei bem porque tomei essa atitude. Apenas me pareceu a coisa certa a fazer. Quero dizer, eu sempre tive todos os motivos do mundo para ficar insatisfeito, por que justamente hoje? Eu não sei. Desci as escadas até a sala de minha chefe, ela falava com uma amiga ao telefone, então esperei.

Ela não aumentou as coisas além da realidade e nossa conversa não durou mais de 5 minutos. Gostaria que sempre fosse assim, mas infelizmente não é possível. As pessoas sempre estão procurando por um bom drama, como se isso pudesse fazê-las esquecer da falta de significância de suas vidas. Bem, eu não.

Antes de partir, segui pelos corredores até o refeitório e comi pela última vez aquela porcaria de comida. Quantos homens se alimentam diariamente daquela mistura sem sabor? É por isso que vejo tantos sujeitos abatidos por aí. Arrastam-se de volta ao trabalho como lesmas deixando seus dejetos por todos os lugares.

Incrivelmente, um toque de tristeza envolvia tudo. Pensava se algum dia eu sentiria saudades de alguma parte daquilo. Talvez quando eu for velho e já não tiver mais nenhum segundo de vida para gastar. Hoje não.

Eu peguei um ônibus de volta para casa, mas no primeiro sinal vermelho ficamos cerca de 10 minutos parados. Eu sentia que tinha tomado as rédeas de minha própria vida então decidi descer e voltar para casa a pé. Tomei um caminho que costumava usar quando era criança, passando pelo centro. Aprende-se muito sobre a cidade perambulando pelo centro. Você percebe que por um preço, tudo está à venda.

Segui o caminho e lá estava ele. Um muro pintado de tinta branca corroída por infiltração.  Ele costumava ser do mesmo jeito desde que eu era garoto. Eu passava em frente a esse muro e as falhas na pintura me faziam tentar identificar formas desenhadas. Cachorros, gatos, rostos deformados, qualquer coisa que eu pudesse imaginar na época. O tempo passa e fode com a nossa imaginação, não conseguimos mais ter boa impressão sobre nada. O mundo é muito cru, cagando sobre a gente o tempo todo. Hoje é apenas um muro branco arrasado pelo tempo.

Muitos escritores criam poucas coisas boas em sua vida. O livro é aclamado pela crítica e eles acreditam nos elogios, estão acabados. Alguns apostam em títulos que chamem a atenção. E conseguem. Porém seus livros são uma sucessão de porcarias sem tamanho. Eu geralmente preciso de algo que me ponha no caminho. Meu tanque está sempre cheio, mas acabo por tomar alguns caminhos errados. Preciso de algo que me sintonize. Acho que quando eu for velho esse problema terá acabado e com ele meu combustível também. De qualquer modo, nunca serei completo. A vida lhe dá e lhe tira muita coisa. Boa noite.

17/02/2011 – 16:22

17/02/2011

Eu estava em um ônibus indo ao trabalho quando essa senhora escorregou ao descer e deu de cara com o concreto da calçada. Alguns dos passageiros se preocuparam em levantar seus rabos dos assentos para ver o que estava havendo. Outros xingaram o motorista como se ele fosse responsável pela idade e a falta de forças nas pernas da mulher. Enquanto isso, ela tentava se reerguer sem a ajuda das pessoas tão preocupas em gritar suas impressões sobre o acontecido. Ela que se foda.

Eu apenas aproveitei nosso pequeno tumulto. O mundo nos diz muita coisa diariamente, o escritor só precisa ter bons olhos e bons ouvidos para senti-lo como ele é de fato. Eu não preciso me trancar em um quarto escuro ou viajar para um retiro espiritual para encontrar sobre o que escrever. Tudo está por aí nos transportes coletivos, postos de gasolina, bancos. Esperando para ser observado. Se o escritor perde contato com esse tipo de coisas, está acabado. Se o escritor se deixa influenciar pelo público ou pelas correntes literárias em evidência, está duas vezes acabado.

Eu fui a uma livraria ontem e não havia nada a comprar. Quando se já leu uma parte considerável de boa literatura não há muito entusiasmo de dar tiros no escuro. Também não existem muitas pessoas confiáveis para indicar algo bom o suficiente. Então aqui estou eu, escrevendo minhas próprias criações. Tentando erguer meu pequeno império literário.

Às vezes eu penso em uma boa história enquanto espero nas filas do banco ou durante o almoço. Mas quando vou escrevê-la, ela se foi. Hoje percebi que talvez elas venham a mim na hora que eu mais precise delas, quando preciso distrair a minha mente para não pirar de vez. Há uma ordem para as coisas e eu estou grato por isso.

 

16/02/2011 – 22:06

17/02/2011

Eu queria ser escritor, mas me tornei um operário. Vendendo minha força de trabalho a trocados, vendo minha juventude pendurada em um gancho ser feita em pedaços a cada problema novo que preciso lidar.

Minha vida sempre foi uma espera constante para fazer as coisas que realmente gosto de fazer. Ir ao banco e esperar. Apanhar um ônibus e esperar. Agora sou sabotado por minha própria ansiedade, quando minha cabeça fervilha em idéias mas as palavras não parecem querer sentar ao meu lado para uma prosa.

As pessoas falam sobre artistas loucos. Sobre como a arte pode fundir nossas cucas com sua subversividade. Bem, eles estão apenas superestimando a porra toda. Eu escrevo porque preciso escrever, todas as palavras que não escrevo me deixam maluco. Não consigo administrar a quantidade de história presas no sótão da minha cabeça. Não poderia passar por um mundo como esses com a boca fechada. Isso, isso sim me deixaria pirado.

Quando escrevo é quando crio incêndios que não tenho certeza se poderei controlar, é quando me sinto vivo e percebo que não preciso da porcaria que alguns chamam de imortalidade. Quando não preciso envolver meu cérebro em uma embalagem plástica e engolir tudo o que vejo pelo frente. As palavras são carros a 160 quilômetros por hora passando sobre minhas próprias entranhas.

Eu tento esperar novamente. Adicionar mais uma fila à minha vida, mais um processo a separar minha chegada a mim mesmo. Digo, vá à casa de sua mulher, tente ver algum filme. Volte depois quando as palavras parecerem mais certas. Então eu vou lá fora e observo todas as pessoas e isso me afasta mais ainda de meu processo criativo. Fico meditando sobre como podemos ser tão diferentes a ponto de eu não conseguir falar sobre isso.

Eu estava voltando para casa hoje e vi essa garota jovem, com um belo par de seios com as mãos entrelaçadas as de um coroa de cabelos longos e brancos, óculos de armação grossa. Pinta de filósofo. Talvez ela esperasse que ele fosse capaz de salvar sua vida de todo o vazio aparente. Ou talvez ele tivesse bastante grana para lhe comprar dezenas de pares de sapatos por dia, ou mesmo possuir um caralho de trinta e cinco centímetros. De qualquer modo, percebi que não sou capaz de identificar a razão para as pessoas amarem umas as outras. Estamos todos morrendo, o homem é o câncer da terra e isso deveria ser o suficiente para nos agarrarmos uns aos outros.

Mas não.

Confissões

03/12/2010

Eu já havia nascido há pouco mais de 3 anos. Mas a primeira coisa que minha memória consegue alcançar é sobre eu sentado em uma calçada, à porta de um lugar onde eu nunca havia estado antes, um lugar que nunca sequer havia ouvido falar a respeito. Várias pessoas que eu não sabia quem eram afagavam minha cabeça e choravam. Algumas choravam de forma contida, outras de forma mais desesperada. Eu não sabia direito o que estava havendo, mas essa situação toda me fazia chorar também. Eu não me lembro de estar perto de minha mãe ou mesmo de meu irmão, mas hoje consigo imaginar onde os dois estavam.

Um tio se aproximou e interrompeu-me de continuar arrancando pedaços de capim que brotavam do espaço entre um paralelepípedo e outro e me perguntou se eu não queria vê-lo pela última vez. Respondi que não.

Vê-lo quem?

Meu pai, sendo sepultado. Eu nunca o vi depois de morto. Na realidade, nunca vi uma pessoa morta pessoalmente até meus 14 anos. A única representação que tinha sobre a morte na época era a de um esqueleto, e esqueletos eram assustadores para mim. Meu tio não forçou a barra. Fez bem. Eu não queria ver o que fazia as pessoas chorarem mais alto. E não sei se me arrependo disso. Meu irmão mais velho teve uma série de pesadelos horríveis após ver o corpo de nosso pai. Eu não sei se eu agüentaria, minha imaginação é muito fértil para conseguir conter a loucura diante de tal tormenta.

A verdade é, não me lembro bem sobre o que aconteceu nesse fatídico dia, ou mesmo nos dias anteriores a ele. É como se minha cabeça soubesse que minha vida iria ser completamente diferente a partir daquele momento. Como se todas as informações que eu havia assimilado até então fossem simplesmente desnecessárias. Bem, se eu pudesse escolher, escolheria lembrar-me de tudo. Mas a vida não é bem uma coisa sobre a qual tenhamos controle.

O que me dizem sobre meu pai é que ele era um sujeito muito boa praça, que todos gostavam. Até que um dia ele sofreu um acidente de carro a trabalho. O homem que bateu nele fugiu do local do acidente. Deixou para trás o carro de meu pai, abandonado na estrada e completamente destruído. Ele estava com medo. Minha imaginação fez o resto. O que não consegui lembrar direito ficou a cabo de minha cabeça, de um modo que as lembranças que realmente tenho se confundem com as que criei. Uma bagunça que definitivamente influenciou a forma com que eu viria enxergar o mundo. Minha mãe perdoou o motorista fujão. Não registrou queixa na polícia, nem mesmo xingou o desgraçado. Deixou pra lá. Ela sempre deixa pra lá, desde que o problema não envolva meu irmão ou eu. E quanto a mim. Passei muitos anos de minha adolescência planejando em minha cabeça um crime que sei que nunca cometeria. Eu era um garoto confuso. Ainda sou.

Então veio a escola. Educação primária. Minha mãe era professora de português e literatura na escola onde eu estudava, não era uma escola lá muito boa, mas eu não tinha tantas dificuldades. Durante muito tempo eu fui um dos melhores alunos da turma. Um dos primeiros a aprender a ler. Expert em cobrir a linhas pontilhadas ou desenhar frutas e coisas do tipo. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo lá, e acho que nenhum dos garotos entendia. Mas isso tudo enchia minha mãe de orgulho e eu não precisava me esforçar o mínimo para conseguir manter as boas notas.

Eu não tinha muitos amigos, mas isso também não me fazia muita falta. Eu andava com dois garotos de minha sala. Um casal de irmãos. O menino, até hoje não sei bem por que, se entupia de cheetos e vomitava em quase todos os recreios. A menina, bem, dizem que ela está muito bonita hoje, depois de quase 20 anos. Nunca tive a oportunidade de vê-la e nem sei se isso me importaria. Então depois que o menino tinha o vômito em sua farda limpo, nós aproveitávamos o restante do intervalo apenas passeando ou correndo pela escola.

Eu posso não lembrar-me de muitas coisas a respeito de minha infância, mas lembro-me de sempre haver algum problema. Qual a magnitude de um problema de uma criança a um enfrentado por um adulto? É estranho comparar, mas eu era apenas um garoto, não conhecia outro tipo de atribulação a não ser as que eu tinha vivido até então. Esses pequenos problemas vêm, até hoje, consumindo minha sanidade como uma pastilha efervescente atirada em um grande copo cheio de água.

Tinha um outro garoto na escola. Eu não me lembro de seu nome, mas lembro bem de sua cara. Ele gostava de enforcar os outros meninos e puxar a pele detrás de nossos pescoços. Anos mais tarde eu briguei com um garoto por vê-lo fazer o mesmo a um cachorro de rua.

Uma vez, um rapaz que já estava prestes a se formar estava bisbilhotando a nossa sala através de uma persiana. Nós éramos garotos de 6 anos, então hoje me pergunto se ele tinha algum interesse em pornografia infantil. O que aconteceu é que alguma das outras crianças enfiou um lápis no olho dele através do vão da persiana e ele cismou que havia sido eu.

Talvez ele tenha me perseguido só pra me sacanear por minha mãe ser sua professora, ou talvez apenas por eu ser uma criança assustada. Mas mesmo na época, eu pensava que se soubesse que ele infernizaria tanto minha vida na escola, eu realmente teria enfiado o lápis em seu olho.

Deve ter sido então quando mudei de escola. Na nova escola, agora de freiras. Todos os garotos pareciam ter interesse por algum esporte. E para mim, esportes eram tão estúpidos quanto qualquer outra coisa. Na sala de aula eu não ia tão mal, mas havia deixado de ser um dos melhores alunos há muito tempo. Ao contrário do primário eu tinha que me esforçar bastante para conseguir atingir uma nota alta. Eu observava os outros garotos obtendo resultados exemplares e depois olhava as minhas notas medíocres. Para mim eu havia atingido o ápice de minha inteligência, não conseguiria aprender mais nada que qualquer professor tentasse ensinar. Mas, mesmo assim eu era obrigado a acordar todos os dias às seis da manhã para ir pra escola. E eu simplesmente não conseguia entender a razão disso. Passei então a ignorar tudo o que me incomodava na sala de aula. Fazia questão de não aprender álgebra, problemas matemáticos ou ciências. Parecia ser apenas mais uma tarefa estúpida.

Não tomávamos café da manhã em minha casa. Eu não sei bem se é por que não tínhamos tempo na época ou outro motivo qualquer. Só sei que o caminho que tomávamos para ir à escola, eu mamãe e meu irmão, cruzava a rua mais malcheirosa da cidade. O antigo mercado de peixes. Era difícil encarar aquele fedor inteiro de barriga vazia e também haviam tantos outros caminhos para tomar. Não sabia porque minha mãe sempre insistia para irmos por aquele. Acho que hoje é tarde para questioná-la. Uma das primeiras atitudes que tomei depois que passei a ir e voltar sozinho da escola foi evitar completamente aquela antiga rota, algo que tornou minhas manhãs um pouco mais agradáveis.

Nos intervalos eu brinquei algumas vezes com os outros garotos. E é por isso que hoje sei que jovens tem muito mais culhões do que qualquer adulto. Eu não conseguia assimilar as regras de qualquer um dos jogos. A única semelhança entre eu e os outros garotos era a incrível capacidade de me machucar. Jovens não conhecem a vida. Jogam pelo agora. Apostam todas as fichas no momento. Jogam uma partida de futebol como se suas vidas dependessem disso. E quando percebíamos que íamos falhar, nos estropiávamos pela quadra de cimento batido. Quedas, arremessos, faltas. Quando se cai no chão duro de cimento ossos quebram, a carne machuca. Durante esses dias eu voltava para casa coberto de hematomas e ainda assim não conseguia sentir-me satisfeito com tudo aquilo. Houve uma vez em que fraturei um dos braços e só contei para mamãe passados 2 dias. Bem, essa vida não era pra mim.

Foi assim que me tornei um “veadinho”, esse era o jeito que os garotos chamavam quem não praticava nenhum esporte na hora dos intervalos. “Bem foda-se isso”, eu pensava, “não vou estourar meu rabo na porra dessa quadra só pra que esses filhos da puta achem que eu sou um deles.”

Com o tempo vieram as garotas e meu primeiro impulso era fugir delas. Eu tinha 12 anos e não sabia o que fazer a respeito. A situação me causava dor de barriga e eu não sabia o que dizer. Depois de um tempo, quando eu comecei a aprender o que dizer e a vontade de estar com as garotas veio, vieram também as espinhas. Eu as olhava no espelho. Caroços brancos espalhados em minhas bochechas e ao redor de meus olhos. A testa, único lugar de meu rosto livre delas, era coberta por meu cabelo. Grandes merdas então, ahn? Eu as espremia e um caroço branco saia e então vinha um fio de sangue. Repetia isso todas as manhãs e ainda assim não conseguia me livrar delas. Ainda hoje tenho algumas. Talvez por isso não goste de espelhos ou tirar fotografias. Encarar-me no espelho enquanto corto os cabelos por mais de 15 minutos parece uma tortura.

Assim eu era um “veadinho” de 13 anos, com notas regulares, sem chances com nenhuma garota realmente bonita e sem a mínima vontade de começar a praticar algum esporte ou me dedicar mais aos estudos. O que eu via nos livros em sala de aula era tão distante do que eu estava vivendo. Achava que os professores estavam me tapeando. Eu, vítima de uma grande brincadeira de mau gosto feita por alguém que organiza o destino dos sujeitos que vivem nesse planeta. O que eu faria durante o meu tempo de escola? Até mesmo conversar durante os intervalos era pedir demais pra mim, eu não conseguia manter uma conversa de mais de 5 minutos com quase nenhum dos colegas de classe.

Então em algum lugar nessa época conturbada apareceu-me a literatura. Sem ter pra onde ir, subia até a biblioteca da escola. Eu lia sobre dragões. Cavaleiros e suas façanhas para resgatar princesas e rumar em direção a uma felicidade eterna. Eu estava encantando com a forma com que podíamos nos transportar para outro lugar apenas lendo aquelas palavras. Porém o conteúdo não me deixava satisfeito. Esses livros pareciam tão distantes de mim quanto os livros didáticos, mas mesmo assim serviam pra passar o tempo. Enfim nas aulas de literatura conheci grandes nomes como Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Souza. Eu lia todas essas obras desses caras cheios de dor e achei que de algum modo a literatura poderia me salvar.

Eu voltava à biblioteca e procurava por mais livros. Não era fácil achar livros bons em uma biblioteca de uma escola de freiras. Para saber se o livro era bom eu abria a primeira página e lia o primeiro parágrafo, e se este parágrafo parecesse bom eu continuava a ler o outro, e então o outro. E foi assim que conheci Dostoievski, Tchekhov, Kafka, Karl Marx e os outros. Eu percebi então que as histórias não precisavam de dragões ou de amores perdidos para serem grandiosas. Histórias eram feitas de homens, assim com eu, ou como fosse que possa estar lendo. Homens comuns, mas dotados de sentimentos e representações da realidade que apenas pertencem a eles próprios. Assim comecei a experimentar, rascunhar histórias que nunca cheguei a terminar, nada nunca parecia ser bom o suficiente. Nada parecia ser suficiente para fazer as outras pessoas sentirem o que eu sentia também.

O tempo passou e veio a bebida. A primeira vez que bebi pra valer tinha 15 anos e acabava de ter dado o fora em uma namorada. Eu gostava bastante da garota. Mas a mãe dela era o diabo e eu não sou nenhum tipo de santo. Eu não consegui agüentar. É difícil deixar pra trás algo que você gostaria de carregar sempre consigo. Então eu e meu irmão fomos ao um bar perto de nossa casa e tomamos umas cervejas, por sua conta. A verdade sobre a bebida é que nós não nos tornamos outra pessoa quando bebemos. O mundo é que deixa de nos agarrar pelo pescoço e nossas defesas finalmente caem. Podemos ser livres pra agir do jeito estúpido que sempre desejamos agir, mas alguma coisa não nos permitia. Eu não consigo imaginar viver sem o acesso a esse tipo de possibilidade vez ou outra.

Drogas nunca funcionaram pra mim. Pelo simples motivo que eu não consigo tolerar drogados. Nada exagerado, a presença deles me incomoda tanto quanto a presença de qualquer outra pessoa, mas a áurea de santidade que eles atribuem a toda porcaria que estão fazendo me deixa enjoado. Não sei lidar com a maneira com que as pessoas precisam se agarrar em significados inventados para forjar uma felicidade que não existe. Sinto-me no colégio de novo, fingindo gostar de esportes pra ser aceito como mais um novo membro no clube dos babacas.

Vieram mais garotas com o tempo e uma delas me trouxe Charles Bukowski. Se você estiver lendo isso, doçura, muito obrigado. Com Bukowski veio John Fante, Hemingway, Dos Passos, Henry Miller, Pedro Juan Gutierrez, Sherwood Anderson, e.e. cummings e os outros.

Esses caras educaram meus olhos a enxergar o mundo da maneira como ele se apresenta de verdade. E não daquele jeito que você vê na TV ou no cinema. Através da literatura eu percebi que não estava sozinho. Era mágico ler pela primeira vez um conto de John Fante ou uma poesia de Charles Bukowski. Sensações que dificilmente provarei de novo. O mundo mostra a cara pra você e depois o engole, fazendo que você se acostume com a vida como ela é. Não há espanto, não há estranhamento, há pouquíssima vertigem. E assim a gente vai vivendo.

Eu passei a encarar a literatura com mais fidelidade. Me compromissar em ao menos finalizar meus textos. Minha cabeça se tornou uma fábrica de situações impensáveis e eu comecei com os contos curtos em primeiro plano, já que nunca fui um bom poeta.

Veio a faculdade, o trabalho, a obrigação (ou a necessidade) de ganhar dinheiro. O que tenho a dizer sobre a faculdade é que ela é muito semelhante a escola, a única diferença é que os alunos da faculdade acham que sabem de alguma merda sobre a vida. Do mesmo modo que eu não entendia os colegas do colégio, não entendo os da faculdade. Não entendo aqueles que a levam a sério demais, tampouco aqueles que não a levam nem um pouco a sério. A falta de compreensão acerca de algumas coisas da vida me faz levantar duas teorias sobre mim. A que eu posso ser retardado. Ou a que simplesmente as coisas não são postas de maneira clara o suficiente. Há sempre camadas, véus que vão caindo e a gente vai compreendendo mais um pouco com tempo.

E há uma garota. Uma garota doce a ponto de me fazer agir com gentileza. Uma garota que não citarei em meio a questionamentos, talvez por eu considerá-la uma das poucas certezas sobre o que sinto pelas pessoas.

O fim ainda não chegou. Para muitas pessoas nossa geração testemunhará o fim do mundo, que se aproxima pacientemente. Se realmente for verdade, vai ser o diabo de um espetáculo não?

Cabe aguardar. Esperar que o fim venha ligeiro, ou que venham coisas pelas quais valham a pena viver mais um pouco. Situações verdadeiramente significativas ou mesmo excitantes que às vezes encontramos perdidas no meio desse monte de coisa nenhuma.

Ainda há tanto sobre o que escrever.

A pílula

04/10/2010

A cápsula é uma associação composta por vitaminas e minerais. É um fitoterápico indicado como adáptogeno tônico e anti-fadiga nos estados de depressão e senilidade, age comprovadamente como anti-stress e atua sobre os sintomas do esgotamento físico e psíquico tais como insônia, dificuldade de concentração, transtornos da memória e depressão.

Uma enorme gota de suor escorre pela extensão de meu rosto enquanto leio a bula do remédio. O formato da pílula é bastante semelhante ao de uma bola de futebol americano. Sua cor é avermelhada e me lembra uma bala, um doce. O corante da pílula começa a se desgastar com o suor de minha mão, deixando a palma manchada em um tom rubro. Eu fecho os olhos e recolho a pílula com os dedos da outra mão, levo a boca e engulo com o auxílio de um gole de cerveja. Parado ali, sentindo o comprimido deslizar pela garganta me pergunto se a tinta está colorindo as paredes de minha traquéia. As gotas de suor continuam a escorrer por minha testa e eu as enxugo com as costas da mão, enquanto aperto os olhos e desejo que algo aconteça. Desejo ouvir uma explosão, um grito. Desejo sentir um baque, um tremor.

Mas nada acontece.

O mundo não sumira. Ainda existe stress, fadiga, depressão e senilidade. O remédio deve estar com algum defeito. Porém, sempre existiriam alternativas, como as drogas, a guerra, o álcool. Mas não adiantaria, me tornei insensível a todo esse tipo de coisa porque não me importa quão longa seja a viagem, o mundo sempre estará no mesmo lugar para me receber de volta.

Garotas para namorar, garotas para transar, garotas para amar. Você fecha o zíper de sua calça e está tudo acabado, não há outro lugar para ir. Por um momento você possui o mundo e tudo o que há de belo está ao alcance de suas mãos, mas o tempo é implacável. Uma foda acaba. Uma garrafa de cerveja acaba. Mas o mundo não. As ruas sempre estarão lá fora. Sempre existirão os mendigos, as prostitutas, os caminhões de lixo e os bares.

As pessoas não conseguem perceber a simplicidade da vida. A banalidade das situações mais comuns como morrer, comer, transar, matar ou dar uma cagada é inconcebível. As coisas precisam ter um significado maior do que de fato têm, porque a vida é curta demais pra não ter sentido algum. Todos começam a viver em grupo e cultuar coisas banais como sagradas, como se isso fosse salvar suas vidas, poupar suas existências do vazio da insignificância.

Assistindo o tempo passar eu me tornei insensível a todas essas coisas que não exerciam qualquer influência sobre mim. Não havia nenhuma sensação realmente excitante. Eu não podia entender como nadar contra a corrente seria o que iria manter minha sanidade, não podia entender tanta insensatez, como se alguma peça estivesse frouxa em mim.

Às vezes imagino que minha percepção se dê ao contrário. Envelheço e as coisas perdem seu valor para mim, não há nada de novo. Enquanto as descobertas de outras pessoas são tardias. Descobrem a guerra, a política, os males do casamento, as armadilhas da vida tudo tarde demais, beirando a morte.

Serei obrigado a conviver com tudo isso para o resto de minha existência, porque a vida é minha, mas não são minhas regras. O mundo é bem maior do que eu serei algum dia.

Ainda continuo de olhos cerrados, com um copo na mão esquerda. A pílula já deve estar em algum lugar em minhas tripas. Abro os olhos e pouso o copo vazio sobre a pia da cozinha. O mundo não explodiu, eu não engasguei e morri. Continuo vivo. Em algum lugar da cidade um mendigo fuça uma lata de lixo, enquanto caminho de volta a cama.